(In)verdades da criminalidade portuguesa

Independentemente de os números da criminalidade terem descido, estamos longe de viver numa sociedade paradisíaca

18 Jul 2019 / 02:00 H.

Já faz uns meses que saíram notícias em diversos jornais aludindo à descida dos números da criminalidade portuguesa relativamente aos crimes violentos e graves. Estas notícias tiveram origem nas palavras do ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, que, correspondendo a uma verdade pouco relevante, não deixam de ser “palmadinhas” nas costas de auto-congratulação.

De facto, verificou-se uma queda percentual bastante elevada entre 2008 e 2018 em relação à criminalidade (apesar do aumento significativo do número de homicídios em 2018), mas importa referir que o Relatório Anual de Segurança Interna, donde derivaram as afirmações do governante, é limitado na medida em que não procura aceder aos números desconhecidos da criminalidade correspondentes aos crimes não reportados. Por outras palavras: não é possível determinar até que ponto é que este relatório não representa mais uma medida do funcionamento das polícias nacionais do que o estado da criminalidade em território nacional.

O segundo aspeto a sublinhar é o paradoxo que surge entre aquilo que é noticiado pelos media e aquilo que é dito por Eduardo Cabrita. Não irei enumerar todos os casos como é óbvio mas irei realçar aqueles que mais nos ficaram na memória: os casos do ataque à Academia do Sporting e dos Hell’s Angels, a epidemia de violência doméstica que só no início deste ano foi revelada na sua verdadeira dimensão ao público, o posicionamento da Madeira e dos Açores como regiões intermédias de tráfico de droga de origem internacional para não falar ainda dos crimes mais mórbidos da nossa terra que, embora menos frequentes, nunca poupam o macabro. Tudo isto sem referir ainda a criminalidade de colarinho branco e a ambiental que, apesar de não terem sido objeto do discurso do ministro, ajudam também a compreender o que é o crime em Portugal. Paira, pois, no ar a evidência de existirem menos crimes mas muito mais violentos e sofisticados.

Ora, estes dois fatores dão conta de que, independentemente de os números da criminalidade terem descido, estamos longe de viver numa sociedade paradisíaca e pacífica como fazem crer as conclusões de Eduardo Cabrita que mais parecem assemelhar-se à lógica (absurda) de que se está mais rico só por se ter encontrado um euro no chão...

Não estou aqui a anunciar o fim do mundo nem tenho por objetivo dizer que somos equiparáveis a países de terceiro mundo. Quero antes constatar que não foi feito o suficiente, sendo o caso da violência doméstica o indicador máximo disso mesmo. Infelizmente vivemos numa sociedade que nem aprova medidas preventivas eficazes (tanto para o primeiro caso como para a reincidência) nem aprova reações musculadas a estes problemas que assombram o nosso país. Em vez disso, preferimos fingir – e acreditar – que o mínimo progresso é equivalente à extinção dos problemas.

Matias Melim

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