Imposto e impostura

Poucos empreendimentos são hoje tão frustrantes como tentar acompanharas notícias

11 Nov 2018 / 02:00 H.

Poucos empreendimentos são hoje tão frustrantes como tentar acompanhar as notícias.

A semana começou com uma algazarra, provocada pela Ministra da Cultura ter dito, no Parlamento, que com as touradas seria “uma questão de valores civilizacionais”. O leitor mais desatento, engolido pela polémica e pelo tumulto, prestava-se a ser ludibriado. Esperava mão censora, julgaria que o Governo ia proibir a festa brava. Nada disso. Bem vistas as coisas, e a “civilização” foi o pretexto para aumentar o IVA das touradas para 13%. O critério é absurdo, mas eficaz. As taxas superiores continuam, neste farol de civilização, a reservar-se para práticas verdadeiramente bárbaras, como prestar serviços de carpintaria, trabalhar por conta de outrem, ou abastecer o depósito do carro.

A civilização não foi, apesar disso, invocada a propósito da visita do Presidente da República à Região. Foi pena. A Lisboa, chegaram relatos do Presidente a cantar à desgarrada no Liceu, a censurar Tancos, e a visitar (aqui muito bem) o senhor que perdeu a casa nos fogos. Escarafunchando as notícias, lá se percebia que Marcelo tinha, afinal, viajado para participar nas comemorações dos 600 anos do descobrimento do arquipélago da Madeira. Triste inversão de papéis. O centenário é uma oportunidade única para lembrar, em cada geração, o papel pioneiro e experimental da colonização destas ilhas para o império português. O senhorio do Infante D. Henrique, o papel dos primeiros madeirenses na conquista de praças na costa ocidental africana e na empresa do Oriente, a cultura do açúcar. A Madeira enquanto tubo de ensaio do império, território de experiências políticas e económicas pré-industriais, de prenúncio do capitalismo internacional. São, todos, temas de interesse público, e foram - apesar do patrocínio do Presidente da República - desleixados por uma comunicação social preguiçosa, centralista, e desligada do seu papel cívico.

Cobertura não faltou, porém, para a Web Summit, uma cimeira de empreendedorismo digital que, por um dias, coloca o resto de Lisboa em estado de estagnação analógica. Não me interpretem mal. Não é o Web Summit por uma semana que aborrece. É a falta de Web Summit o resto do ano. É o Portugal corporativo, economicamente reaccionário, apostado na cooptação de grupos de interesse e na protecção do sector improdutivo. O Governo colhe os louros pela organização, e afirma o País como um campeão da inovação e da economia cibernética. No fim da semana, volta a ser o Governo cuja acção depende do Bloco e do PCP, dois partidos anti-pluralistas, desconfiados do sector privado, e mandatados para impedir a revolução digital - como se vê, por exemplo, nas derivas que vão entretendo a propósito das plataformas de transporte de passageiros e de alojamento local.

Não contesto que, nuns e noutros casos, uma sociedade se faça do equilíbrio destas perspectivas, e que esse equilíbrio seja fruto de um certo combate. O que desespera é a improdutividade, a falta de compromisso, o absoluto divórcio entre discurso e acção. Na pior das hipóteses, os problemas adiam-se. Na melhor, amanham-se no silêncio dissimulado da impostura.

Não entendo as notícias. Temo que a civilização tenha evoluído. E falte pouco para me subirem o imposto.

Pedro Fontes

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