Epitáfio a uma mãe

A escrita, mesmo que num humilde artigo de jornal, é uma tentativa de evitar o nada, o apagamento da memória. É o tributo possível a quem partiu merecendo ficar

28 Jul 2018 / 02:00 H.

Maria Gorete Escórcio Correia morreu há precisamente um mês, no dia 28 de junho. Soube-o por acaso e talvez por isso ainda esteja a digerir a notícia. Sim, porque quando a morte surge sem aviso prévio, sem período que permita ajustar-se a ela, tudo se torna muito mais difícil de encaixar até para quem assiste de longe como eu que nem pertencia ao núcleo de amigos daquela que, ainda assim, sempre tratei por a Gorete. Conheci-a também por acaso já lá vão mais de 30 anos. Era colega de trabalho da minha irmã e, à conta da amizade que as unia, o seu filho, o Miguel de então 10 anos, foi um dos pajens do casamento dela, da minha irmã. Guardo dele a imagem de um menino travesso de olhos verdes, trajando fraque, que cumpria orgulhoso a sua função no cortejo nupcial, trocando olhares cúmplices com o meu irmão da mesma idade, também ele pajem, num misto de jocosidade e picardia inocentes.

Quis a vida que poucos anos depois o meu caminho se voltasse a cruzar com o da Gorete, desta feita nas piores circunstâncias possíveis, quando, enquanto jornalista, iniciei a cobertura do homicídio do mesmo menino de olhos verdes, já adolescente, cuja autoria foi atribuída ao pe. Frederico da Cunha, pedófilo evadido da prisão, hoje a residir impunemente, como é público, num qualquer prédio entre Copacabana e Ipanema, onde celebra missas numa pastoral da zona.

Naquela altura, o constrangimento selou-me. Nunca conversamos, a Gorete e eu. Nem ao menos trocamos um olhar. Acho, aliás, que a Gorete não trocou olhares com ninguém senão com o marido, o único que compreendia a dimensão da dor que a dilacerava porque também era a sua dor. Juntos, mãe e pai, enquanto decorria o julgamento do assassinato do filho, foram a personificação da dor, da angústia, da impotência, da incredulidade, da perda que só pode ser dimensionada quando vivida na primeira pessoa.

A morte de um filho, na verdade, não cabe nas palavras, não pode ser sequer imaginada. É contra natura, abominável, simplesmente execrável, a materialização do mal. Aniquila a réstia de inocência que ainda nos habita, criando o vazio do incompreensível e a ira contra um destino inexorável que, bem à maneira grega, castiga sem piedade quem ousa amar um filho mais do que os próprios deuses.

Mesmo assim, a Gorete ergueu-se das cinzas num exemplo único de resiliência. Fê-lo pela filha que também perdeu o irmão. Soube reinventar-se, dar um sentido à vida. Soube converter a dor que a torturava em bondade para com o outro. Soube, sobretudo, perdoar e vencer, assim, o algoz que um dia a condenou, a si e aos seus, à escuridão.

Se o seu sofrimento alguma vez se aplacou, não o sei. Preciso, no entanto, de acreditar que sim para poder dar à sua história um final que me reconforte, a mim que também sou mãe. A mim que acredito que a vida é um milagre e a morte algo verdadeiramente inverosímil, ainda mais quando se abate sobre quem não a merece e passa ao lado de quem, impiedosamente, a exerce.

A morte, escreveu Vergílio Ferreira, é o nada. Se nascer é aparecer no mundo, morrer é desaparecer dele assim que a nossa presença se apaga da memória daqueles que, direta ou indiretamente, a perpetuam depois da nossa morte. A escrita, mesmo que num humilde artigo de jornal, é uma tentativa de evitar o nada, o apagamento da memória. É o tributo possível a quem partiu merecendo ficar.

O Miguel morreu há 25 anos num estrondoso mediatismo; a Gorete há um mês, silenciosamente e levando consigo os insondáveis mistérios de uma fé inabalável que a ajudou a sobreviver à morte do filho e a encontrar na filha e nos netos a paz que lhe foi roubada de forma infame pela lascívia de quem deveria fazer o Bem.

Ao miúdo do fraque, à mãe que foi cruelmente privada de o ver homem e a todas as outras que também perderam o rumo da sua existência, o meu sincero reconhecimento, o meu sentido e verdadeiro preito.

Eker Sommer

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