Em defesa do Serviço Regional de Saúde e do SNS

23 Mar 2020 / 02:00 H.

Muitos críticos do Serviços dos Serviços Públicos de Saúde se esqueceram dos tempos em que tinha saúde quem tinha dinheiro, e, quem não tinha andava a mendigar nas Misericórdias esperava pela caridade de alguns médicos, que os atendesse no seu consultório, depois dos pagantes serem atendidos primeiro. Lembro-me de um grande amigo o Dr. Vasco Reis, em Câmara de Lobos, atender mais de 10 doentes de borla ao fim da tarde, oferecendo alguns medicamentos que os laboratórios lhe davam.

A minha mãe a Conceição do rês, viúva com 3 filhos menores de idade, começou a ser parteira de mim, seu filho, com ajuda da minha irmã e de uma curiosa cá do sítio.

Com o seu «doutoramento» dentro das bananeiras, ou nos casas dos pobres , desenrascava as grávidas. Foi a parteira de muita gente, da Ajuda a Câmara de Lobos, e safou muitas mulheres.

O custo do seu serviço era 50 escudos sem recibo. Fazia o parto e tratava 7 dias da higiene pós parto e ainda levava a criança ao batizado, onde a seguir à cerimónia , normalmente havia uma canja umas sandes de uma galinha que tinha que dar para todos os convidados!

O Serviço Regional de Saúde , SRS, e Serviço Nacional de Saúde , são grandes conquistas de Portugal de Abril, de Portugal democrático, serve todos os portugueses de todas as classes sociais, pobres ,remediados e ricos. Ninguém é abandonado se tiver necessidades, mesmo que os tratamentos custem ao Estado uma fortuna é financiado pelos nossos impostos, também estes pagos de forma progressiva conforme os rendimentos.

Desde junho de 1975 que trabalho como engenheiro, no serviço público de saúde, e, quase um «pixote», tive de fazer a remodelação do Serviço de Urgência do H. Santa Maria, mal saí das forças armadas. Sabia tanto de hospitais como de chinês. Precisava de ter dinheiro para comer, aceitei trabalhar a recibo verde durante um ano, e só tinha a certeza de receber de 2 em 2 meses, era assim o contrato.

Aprendi com os mais velhos, pedi sempre para fazer os trabalhos mais difíceis, aprendi com engenheiros, arquitetos, médicos, enfermeiros, administradores hospitalares e com aqueles mestres operários grandes sabedores.

Desde 2008, tenho prestado muita atenção á politica regional. Vejo quase todos os dias notícias e opiniões na Comunicação Social, alarmistas, de alguns oportunistas, notícias e opiniões contraditórias, por vezes mentirosas sobre o SRS.

É bom lembrar aos inimigos do SRS e do SNS, que estudos isentos internacionais, afirmam que Portugal está entre os 12 melhores Serviços Nacionais de Saúde da Europa.

Houve recuos no SNS. Convém não esquecer aqueles que tendo a maioria absoluta na Assembleia da República, alteram a Lei do SNS de António Arnaut, e aprovam a lei que vigorou até à pouco tempo e que transformou o SNS em concorrência com o sector privado.

Tudo, era favor do privado: era a altura dos campeões dos seguros de saúde, foi a altura de desinvestir no sector público, foi o tempo das parcerias público privadas. Hoje o número de camas do sector privado é quase igual á do sector público.

Defender o SRS e o SNS , serviço público de saúde de todos para todos é um imperativo Regional e Nacional, e, hoje está mais que demonstrado a sua necessidade.É a garantia de que parte dos nossos impostos são aplicados na saúde de todos nós, desde a educação para a saúde, à prevenção da doença, da saúde de proximidade nos centros de saúde ,da saúde diferenciada nos hospitais dos cuidados paliativos, da saúde mental ,da gerontologia etc.

Nunca estive ,nem estou contra o sector privado ,supletivo ,complementar do SNS,nunca em concorrência com o sector público.

Presto muita atenção ao sector social, às misericórdias e outras instituições sociais.Não devemos pagar a saúde 2 vezes, a primeira com os nossos impostos e a segunda através do legal negócio do sector privado.

Hoje o sector privado, está nas mãos dos grandes grupos económicos ,passou o tempo das pequenas clínicas, autênticas cooperativas, e sociedades por quotas de médicos e outros profissionais de saúde, estão fora de moda os consultórios privados. Os profissionais de saúde ,na generalidade ,são assalariados no sector público e no sector privado.

Altos responsáveis políticos, quando na oposição ,afirmavam que: apesar do envelhecimento da população e redução da natalidade,assiste-se ao paradoxo de ver o governo construir mais escolas, para poucos anos depois encerra-las e, entretanto, não constrói nenhum lar ,pese embora a longa lista de espera.

O Novo Hospital, umas vezes era grande demais ,outras vezes era pequeno, o HCM estava mal feito porque não ouviu as ordens. O novo hospital obedece a todas as normas e regulamentos da ACSS, da Proteção Civil, está pré certificado em termos acústicos térmicos e energéticos,o heliporto está certificado fez-se estudo de impacte ambiental, fez-se o estudo analise custo benefício e foi aprovada a candidatura a PIC.

Nunca afirmei que o SRS e o SNS não tinham problemas, o que sempre disse é que é preciso aperfeiçoar a gestão dos recursos humanos e materiais, optimizar as instalações e equipamentos, de modo a evitar duplicações nalguns casos e evitar as carências noutros locais. Defendi e defendo que as consultas e os exames especiais se façam também na parte da tarde, que devem existir mais profissionais em regime de tempo prolongado e regime de exclusividade,devidamente remunerados e evitar os profissionais « turbo» que trabalham em 3 ou 4 lugares evitando-se o síndrome de bournaut (esgotamento físico e mental intenso) realidade que tem de ser atendida dado existirem no SRS mais de uma centena de médicos com este problema.

Vamos todos defender e melhorar o SRS e o SNS. Deixemos de hipocrisia, de baixa política, quase sempre baseada na ignorância, na incompetência, na demagogia barata, no populismo fácil e no bota abaixo permanente.

Neste momento difícil é bom agradecer aqueles que mantêm as unidades de saúde a funcionar, o canalizador, o electricista, o pintor o mecânico, o engenheiro, o enfermeiro o médico o gestor sem os quais não havia segurança.

Reconhecer o papel das forças de segurança, da Proteção Civil aos fornecedores de alimentos medicamentos e todos aqueles que dão o corpo às balas do covd-19,para que pouco nos aconteça.

Na dialética política, no combate das ideias não vale tudo, não vale lágrimas de crocodilo. Vamos trabalhar e viver com as regras determinadas. Vamos evitar o pânico e ter uma palavra de gratidão com aqueles que arduamente nos protegem.

Dirio Ramos

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