Eleições versus crise da direita ou crise do regime

Estamos pois, em tempo de serenar o espírito, duramente fustigado pela verborreia

13 Jul 2019 / 02:00 H.

Ao olhar as aceleradas movimentações políticas em ordem às próximas eleições regionais e legislativas colhe-se a impressão de que tudo se está passar com um nervosismo incontrolável.

Todos os discursos dizem sim, não e antes pelo contrário. Sem a marca do partido seriam de proveniência desconhecida. Se por um lado se fala em bipolarização, direita-esquerda, por outro não se nota quase nenhuma demarcação ideológica nos discursos proferidos.

Talvez, isso sim, esteja a germinar uma grande ilusão, com a certeza apenas de onde se veio, mas para o total desconhecimento sobre para onde se vai. Por um lado pretende-se estabilidade, pois não faz sentido ter um governo que, três meses depois de ser eleito, seja derrubado por um qualquer capricho da oposição. Por outro, parece que todos têm medo de entregar o país a uma força única que não saiba bem o que fazer com o poder.

Já tudo nos tem acontecido neste gracioso tempo de democracia que ninguém, de sanidade mental razoável, quer perder, mas que nem por isso deixa de lançar questões sobre a forma de a gerir. O risco que se corre é de investir todas as energias na manutenção da aparelhagem política deixando para último lugar a sua primeira razão de ser: o povo que, ora tem ares de integração no desenvolvimento nas panorâmicas rápidas das cidades, chafarizes e auto-estradas, ora anda mergulhado num terceiro-mundismo de carências que dão títulos de abertura aos telejornais e primeira página aos grandes periódicos. Não podemos esquecer que um Estado moderno, em qualquer parte do mundo, tem de se confrontar hoje com uma economia global que passa por alto leis e fronteiras nacionais.

Como corrigir as desigualdades provocadas pela globalidade?

Como preparar os indivíduos para a era da nova e acrescida competição em todas as ordens da vida?

Como reestruturar os programas de bem-estar a fim de que os cidadãos mais débeis não sucumbam ao darwinismo global?

O Estado, em partícular, não deve abandonar a protecção de ineficiência só para cair na protecção da injustiça.

A governação global tem, no mundo da globalização, um papel fundamental para manter o equilíbrio social dentro de cada nação e isso não se consegue sem níveis de despesa pública inferiores a 30 por cento do produto interno bruto. Isso, por sua vez, exige promover a poupança interna e sair do círculo vicioso que nos conduz o atrair de capital externo com altas taxas de juro, em vez de estimular a entrada do capital produtivo com altas taxas de poupança. Para conseguir isto, é preciso uma relação complementar, não um confronto hostil, entre o sector público e privado.

E é neste ponto que a sociedade civil, o terceiro sector, o sector social, cumpre o papel fundamental de criar pontes entre o sector público e o privado, dissolver antagonismos inúteis, afirmar compatibilidades de interesse colectivo e agir por conta própria em territórios que os outros dois sectores não são capazes de ocupar, de descrever e amiúde de imaginar.

As nossas móveis democracias serão postas à prova pela capacidade ou incapacidade de associar a própria ideia da liberdade política à própria ideia de bem-estar social. A sociedade civil tem por função socializar tanto o sector público como o privado - iria mais longe: deve coloniza-los; mas deve saber – a sociedade civil – que ela própria é constantemente colonizada pelo Estado e pela Empresa.

No fim de contas do que se trata é de devolver o poder às pessoas, criar as condições para uma prosperidade real, a partir de baixo, mais certa que prosperidades débeis que, a troco de uma indispensável disciplina fiscal, não vencem o empobrecimento nem o desemprego, ou a prioridade concedida ao capital financeiro à custa da fé no capital humano. Que fazemos com os pobres? Temos de passar de uma modernização promotora da exclusão a uma modernização promotora da inclusão. A lógica do mercado por si só, “acentua as assimetrias”. Não podemos criar um novo modelo de modernidade a partir de projectos locais, e participação das comunidades, quer dizer, da sociedade civil? “Sem renunciar à eficiência económica global... Sem quebrar a disciplina da despesa, a estabilidade económica e de preços, “devemos” atender às prioridades do desenvolvimento humano.

São estas questões que terão de ter respostas nas próximas eleições Regionais na Madeira e Legislativas Nacionais porque a sociedade civil não vive no ar. Precisa de tecto protector da democracia e da seiva nutritiva da raiz cultural.

Crise da direita ou do regime político? Os portugueses saberão responder a esta questão nas urnas...

Nessa altura os vencedores reconfirmarão a ideia que sempre suporta o júbilo da vitória política. “O povo é, não só soberano mas também inteligente, perspicaz, leitor atento das entrelinhas da campanha eleitoral”. Os vencidos embora digam que não conseguiram fazer passar a sua mensagem, acabam por se confortar amargamente, com os últimos estudos sobre o baixo grau de escolaridade do povo, as tabelas que ocupa no ranking cultural europeu, e ainda de o país não merecer tanta competência e generosidade. Enfim, tal como no final de uma grande taça, as razões atabalhoam-se como as esferas aos saltos na caixa mágica do euromilhões.

Estamos pois, em tempo de serenar o espírito, duramente fustigado pela verborreia, por vezes histérica, de algumas intervenções na campanha eleitoral, que ainda não começou.

No entanto como observador atento à realidade madeirense não posso deixar de sugerir uma coligação eleitoral entre o o PSD-M e o PP-M, para não cairmos num caos pós eleitoral com a vaga hipótese de Cafofo vir a vencer as eleições regionais. O populismo pode tornar a Região ingovernável e não faz sentido colocar na primeira linha dos atributos políticos a ausência de escrúpulos, a habilidade de dizer e desdizer, ou mesmo a opacidade em ideias e princípios, por troca duma eficácia imediatista, com fins à vista e sem reserva de meios. Parece, por vezes, que ser pouco honesto é o menos. O importante é ser hábil e ágil.

O candidato independente do PS às eleições regionais da Madeira tem um caminho difícil pela frente para conseguir que os socialistas se estreiem na liderança do governo regional. A campanha já arrancou com a apresentação de 100 compromissos para 100 dias, mas faltou novidades nas medidas que ajude à mobilização do eleitorado de esquerda. Uma vontade foi expressa por Cafofo na apresentação das medidas – “ um novo relacionamento com o continente” quando todos vimos como esse relacionamento foi tido durante estes quatro anos com António Costa. São estes senhores que se propõem ser gerentes dos nossos haveres e representantes do povo e da terra que somos. Tudo isto ganha particular ênfase em campanha eleitoral. Teoricamente, é um tempo de excelência para lançar projectos, pessoas e programas que respondam às inquietações a que a política tem por dever, dar saída. Infelizmente, na prática, porém, pode dar-se exactamente o contrário: o tempo em que nada se diz merece ser escrito, pois existe uma espécie de cumplicidade de o pregoeiro vender mentiras, e o cidadão, sem escândalo especial, apenas as não comprar. AS coisas sérias da vida ficam para outra altura.

O tempo é, por isso, de interiorizar os restos de palavras, escritas na areia da nossa pequena história democrática. Estamos, afinal, mesmo com cores diferentes, embarcados na mesma viagem...

Roque Martins

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