‘Efeito’ elevador!

Assim se entende porque tanta entrevista é feita nas televisões, sem ter qualquer “culturabilidade”, sem nexo ou sem razão

17 Fev 2020 / 02:00 H.

Toda a gente conhece e sabe o que é um elevador, ... aquela caixa metálica, por vezes envidraçada, que serve para transportar pessoas em sentido vertical, isto é, para cima e para baixo. No nosso país os elevadores têm muita utilização, muito mais do que as escadas convencionais - daí uma prevalência das doenças cardiovasculares - maior utilização ainda nos centros comerciais e locais públicos, onde as pessoas estão como se fosse de férias , com muito tempo e algum “crédito” activo nos cartões. Nestes locais é muito comum - pela grande densidade de visitantes - os elevadores terem um utilização extrema, com a agravante de muitas pessoas carregarem no botão para cima quando afinal querem ir para baixo, ou vice-versa. Nos fins de semana ou nesses dias de muita frequência, as pessoas que querem subir, por vezes descem para não perder o lugar ou então sobem para depois descerem para o estacionamento. Daí ser comum, aguardar um elevador no ponto mais alto ou no mais baixo e ele já estar repleto de “chico-espertos”. Que sobem para baixo e descem para cima! Também é comum as pessoas que estão á espera do elevador quererem entrar, antes dos que estão dentro saírem, provocando uma confusão súbita e ridícula. Agora, está autorizado o transporte de animais de companhia em elevadores - com coleira e açaime - e há quem o faça sem conhecer devidamente o seu “bicho” ... e outro dia num elevador dum lindo centro comercial da capital, entrou um sujeito com um cão, devidamente equipado e protegido, mas, o bichinho de cor preto-escura com 40 quilos, começa a ladrar ... deve ter farejado algum odor mais estranho ?? ... o dono começa a falar alto com o animal, continua a ladrada e o homem fala ainda mais alto e depois muito alto, tudo isto dentro daquele cubículo repleto de adultos e crianças, ... quando finalmente chegámos ao terminus da viagem! Vinte longos segundos com imensa emoção, sem episódios traumáticos. Enfim, uma cena real, europeia, totalmente descabida e desnecessária!

Agora falemos do “efeito” elevador. Não é mais do que uma reacção, de natureza ainda pouco esclarecida, portanto não é química, e assim não é metabólica ou fisiológica, que consiste, em conseguir - mediante um questionário adequado e meticulosamente executado - melhorar o perfil, físico, psicológico, funcional, empresarial e outros, realizado em ambiente com muita audiência, na rádio, televisão, etc. Em princípio, este “efeito”, consegue melhorar ou até anular, situações de conflito, mal-entendidos, quezílias, acusações ou até mesmo crimes ou burlas. Pessoas com processos nos tribunais, sendo arguídas, suspeitas ou sómente indiciadas de práticas ilícitas, passando por este efeito elevador, conseguem preservar o seu estatuto, digno, de grande lisura, organizado, vertical, tornando-se uma pessoa com reconhecida e justificada honestidade e com uma forma de estar inatingível para qualquer tipo de lei. Para tal têm de passar pelo “crivo” do tal programa de rádio, ... melhor ainda de televisão, com pergunta-resposta, avaliando essa idoneidade, responsabilidade e actuação, que estaria a ser considerada duvidosa. O efeito elevador depois far-se-á sentir, principalmente no sentido ascendente, raramente no descendente, consoante os casos e claro está, consoante o resultado das respostas. E tenho reparado que há muito ladrão encartado, que após 15 a 20 minutos de conversa na televisão, passa serenamente por um herói nacional. Funciona como uma anestesia completa ... do registo criminal!

No início deste ano, tivemos essa experiência e essa oportunidade de ver e ouvir em directo na televisão, uma reconhecida e bem catalogada empresária africana, a passar brilhantemente por um destes testes - com efeito elevador ascendente - demonstrando, mesmo aos tele-espectadores menos atentos, a sua vasta obra, os seus investimentos, o seu portofólio e o seu sorriso ingénuo “mona-lisenho”! Quem diria, afinal, que a “rapariga” por detrás daquele constante sorriso “vinciano”, era uma pessoa capaz de extorquir valores incalculáveis ao seu país de origem, prejudicando todo o povo desse enorme e rico território, em seu próprio benefício e quiçá da sua família! Tenho constatado e observado muito “boa” gente, usar a comunicação social portuguesa, para “lavar” e “escafiar” a sua imagem, com a conivência dos entrevistadores, e assim subir três ou quatro andares no seu percurso de vida, ... sem sequer chegar a tocar numa tecla do elevador.

Assim se entende porque tanta entrevista é feita nas televisões, sem ter qualquer “culturabilidade”, sem nexo ou sem razão, mesmo aparente, parca de interesse e nula de qualidade, que afinal tem um objectivo único - limpar a imagem e o curriculum do entrevistado.

P.S. O R. Pinto conseguiu de forma ilegal, ajudar a justiça a instaurar processos fundamentais relativos a desvios ilícitos de capitais. Será que, vai passar a ser legal cometer estas ilegalidades?

José Manuel Morna Ramos