É caso para dizer que “mais vale tarde do que nunca”

04 Ago 2019 / 02:00 H.

Sejamos, pois científicos. Tivemos de esperar 140 anos, 11 meses e 16 dias para o génio da lâmpada aparecer, não para conceder desejos, mas para nos dizer que há “desejos impossíveis”. Falo do Louvor e concessão de Medalha de Ouro de Serviços Distintos ao Comando Regional da Madeira da Polícia de Segurança Pública (CRM), que durante as cerimónias alusivas ao dia da Polícia, quebrou um mau-olhado cujo texto enalteceu os feitos do Comando Regional e abracadabra engrandeceu os seus profissionais ao serviço das populações da Madeira e de Porto Santo.

Na verdade, no difícil equilíbrio entre o que deve ser feito e o que efectivamente faz, a Administração Interna – Gabinete do Ministro, por proposta do Director Nacional da PSP, concedeu esta dádiva ao CRM, tendo sido publicado em boletim oficial no Diário da Republica sob o n.º 134/2019, Série II de 2019-07-16.

Numa perspectiva positiva desta condecoração, deparamos com uma primeira verdade. Os profissionais com funções policiais e com funções não policiais, são merecedores de tal agraciamento e ‘projecta’ também nos outros, de forma natural e fácil, quase como uma fotocópia, a realidade, as características ou aspectos de motivação e de encorajamento geral.

Contudo, a palavra ‘Expectativa’ é aquela que, na realidade, afirma com mais vigor e rigor a existência desse fenómeno e a possibilidade de melhorar, de crescer para a sua plenitude e perfeição ultrapassam, de longe, todos as suas mais recônditas aspirações, dando mais ânimo aos profissionais e vaticinar um futuro melhor para o CRM.

Sejamos claros, no entanto. Seja para quem for, passaram anos e anos, até que, um belo dia, com pompa e circunstância, muito “fogo-de-artifício”, brindes e na presença de todas as excelências da “terra”, o CRM e todos os seus profissionais, finalmente foram reconhecidos publicamente.

Indo mais longe e, talvez, enverando por caminhos não muito falados... sinceramente merecíamos muito mais. Ora, ninguém está à espera, por exemplo que a Região Autónoma da Madeira (RAM) e as suas Instituições Públicas nos venham salvar e dar palmadinhas nas costas. O que se espera é um gesto de reconhecimento público do género que nunca existiu ao CRM. Se o CRM é respeitado aqui é porque existem polícias que se batem todos os dias pela portugalidade, que se insurgem contra atropelos à Lei, que protegem e salvaguardam os bens da população, que teimam em ser fiéis ao seu estatuto de polícias.

Muitas vezes ponho-me a pensar até que ponto o Representante da República para a Região Autónoma da Madeira; a Assembleia Legislativa Regional, o Governo Regional e as Câmaras Municipais desta RAM, conhecem verdadeiramente o valor da sua Polícia e os seus profissionais? Interrogo-me se terão algum dever moral ou de mera cortesia, em procurar saber ao menos a importância desta instituição, que provavelmente seja a mais antiga Instituição existente na Madeira. Passados mais de quarenta anos sobre a instauração da democracia, ainda se considera estranho que, numa mesa de honra, o CRM não conste nas intuições galardoadas pelas entidades públicas desta RAM.

É caso de trauma? Provavelmente, é de alguma forma e todas as mágoas são legítimas quando sentidas – mas também, felizmente, passíveis de concerto quando há ensejo disso. Talvez o que faça sentido hoje, mais que apagar a história do CRM que a alguns continua a doer (e nós, continuamos a não perceber porquê), seja olhar para ela com verdade e rigor e perceber onde fere e como fere. Enfim, fiquemos por aqui.

Voltando à Condecoração, honestamente senti-me orgulhoso, sobretudo quando o reconhecimento foi feito pelo Director Nacional da PSP, mergulhado ainda em algumas dificuldades económicas, dá mostras de lucidez, vitalidade e de uma vontade de se levantar, proporcionando ao CRM e aos seus profissionais um verdadeiro alento oferecendo ao nosso Estandarte a sua mais bela e importante condecoração. É caso para dizer que “mais vale tarde do que nunca”.

Adelino Camacho
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