Criminologia à Portuguesa

Ou se começa a investir na ciência ou se deixa de promover o ensino superior e dá-se prioridade ao trabalho técnico

21 Jun 2019 / 02:00 H.

De forma a fundamentar todo o discurso que se segue, afirmo, à partida, o meu estatuto de licenciado em criminologia (atualmente estudante de mestrado na mesma área) e também a semelhança entre o ser-se madeirense e o ser-se criminólogo: é um orgulho infindável que, no entanto, não nos impede de apontar de forma frontal os nossos defeitos e, ao mesmo tempo, de não aceitar críticas daqueles que, vindos de fora, não sabem do que falam.

Agora que as cordialidades já foram cumpridas, passemos ao tema em questão: o reconhecimento da Criminologia enquanto profissão, uma iniciativa levada ao Parlamento pelo Bloco de Esquerda e pelo CDS – Partido Popular e votada a favor por todos os partidos à exceção do Partido Socialista que optou por adotar a neutralidade que de “neutra” tem muito pouco, a abstenção. Esta hostilização de uma classe profissional, que na altura ainda nem era reconhecida, não é propriamente novidade por parte do PS, não fosse o seu período de governação recheado de crises profissionais, tenham elas sido causadas por Governos anteriores ou não.

Por que caracterizo isto como uma hostilidade contra a nossa classe profissional? Por duas razões. Em primeiro lugar, o facto de que a licenciatura em criminologia já existe desde 2008 – apesar de, em termos profissionais, existir uma inexplicável preferência por formados em psicologia, em direito e em sociologia nas áreas que são objetivamente do âmbito dos criminólogos (polícias, técnicos, ASAE, CPCJ, SIS, etc.) – e havia a necessidade gritante de reconhecer a profissão (visto que muitos acabam em trabalhos que não requerem especialização ou então imigram para países onde a sua especialidade é devidamente reconhecida). Em segundo lugar, a hipocrisia demonstrada por António Costa ao referir que quer que, em 2030, 60% dos jovens esteja a frequentar o ensino superior, desejo expresso dois dias antes da abstenção socialista.

A minha única questão é a seguinte: para quê formar profissionais para depois não existir espaço no mercado para eles? O PS parece pensar a muito curto prazo, isto porque com decisões como esta está preparando gerações para a mendicância profissional e nada mais. O mesmo pode ser discutido em relação ao envelhecimento dos profissionais de alta patente sem que haja qualquer tipo de mecanismo de rotação entre licenciados e profissionais à beira da reforma.

Por agora, o problema está sendo apontado por classes menos reconhecidas, mas quando forem profissões mais tradicionais (engenharias, medicina e economias, por exemplo) é que, como se costuma dizer, “a coisa vai dar o berro”.

Sumariamente, esta crise das profissões vem justificar uma de duas soluções: ou se começa a investir na ciência ou se deixa de promover o ensino superior e dá-se prioridade ao trabalho técnico por via dos cursos profissionais, por exemplo.

Seja como for, foi um atentado do PS e diga-se também mais uma fator de descredibilização para a sociedade democrática, na medida em que, antes disto tudo, mais depressa votaria no PS, que acreditava ser o menor mal, que no BE ou CDS, no entanto foram estes dois que contribuíram para o bem estar de nós, criminólogos. Parabéns a todos os Criminólogos com “C” maiúscula pela vitória!

Matias Melim

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