Cortando fatias de mar

10 Nov 2019 / 02:00 H.

Pensava eu que, passados tantos anos, tantos milhares de horas, tantas histórias temperadas com sal, já vivera um pouco de tudo no windsurf. Velejei em todas as classes de prancha à vela, por todos os mares do planeta, outros tantos lagos e rios. Destrui milhões e milhões de pequenas ondas, risquei vagas vezes sem conta, desci montanhas líquidas, cai ao mar tantas vezes, umas suavemente, outras nem tanto, mas recomeçando uma e outra vez. Sempre em busca de algo que já não encontro palavras para definir. Seria perfeição? Ambição? Vício? Ou, simplesmente, andei à procura de mim mesmo este tempo todo? Provavelmente um pouco de tudo.

Mas quando terminou um ciclo ininterrupto de 28 anos, sempre com os Jogos Olímpicos como pano de fundo, temia um vazio existencial. E tal pairou no horizonte, estendendo os seus tentáculos, ameaçando tapar o sol. Até que comecei a cortar fatias mar. E tudo recomeçou. De novo.

Há uma semana atrás, a Federação Internacional de Vela, deu um sinal de contemporaneidade que não se lhe reconhecia. Ao introduzir o windsurf com foil no programa Olímpico, em detrimento do windsurf mais convencional, ouviram-se urras de alegria um pouco por todo o mundo. Pela primeira vez, a classe Olímpica de windsurf é extraordinariamente apelativa e está na vanguarda da mais recente tecnologia aplicada à vela. Agora, literalmente, voamos baixinho, acima da linha de água, ouvindo mais nada do que finas lâminas de carbono rasgando o oceano.

É uma extraordinária oportunidade para toda uma nova geração. A vasta maioria de velejadores do planeta parte do mesmo ponto, tendo pela frente todo um mundo novo por explorar. Pessoalmente, ainda que sem a ambição Olímpica, não deixa de ser também um desafio. O de ajudar outros tantos a atingirem o sonho Olímpico. Só que não como treinador, mas como companheiro de jornada.

Pela frente temos muitos obstáculos. A tarefa parece mesmo impossível. Enormes constrangimentos financeiros e geográficos parecem inultrapassáveis. Mas se alguém recuasse a 1980, àquele dia em que uma criança aprendeu a velejar no Funchal e contasse a história de sete ciclos Olímpicos, ninguém acreditaria. E no entanto, aconteceu...

João Rodrigues
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