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Corrupção nossa de cada dia, dia após dia

A corrupção atravessa transversalmente a nossa sociedade embora se vá acentuando à medida que se sobe na pirâmide social

Para muitas pessoas, falar de corrupção é o mesmo que referirmo-nos aos Bava, aos Granadeiro e por aí fora. Ainda que isto seja verdade, não identificam, contudo, como corrupção, aquela quotidiana, a pequenina, à nossa beira, que faz parte das nossas vidas, e é considerada como “desenrascanço”, “dar um jeitinho” e tantas outas designações conformadas e conformistas, um misto de aceitação com “não há nada a fazer”.

A corrupção atravessa transversalmente a nossa sociedade aos vários níveis embora se vá acentuando à medida que se sobe na pirâmide social onde tanto as influências como os valores em questão são maiores. O “fechar os olhos” a um passageiro que viaja sem bilhete no autocarro é sem dúvida um ato de corrupção, do mesmo modo que deixar implantar um hotel excedendo o índice de construção, alterando se necessário o PDM para o efeito, também é. A única diferença é que uma se refere a tostões e outra a milhões, uma envolve “fazer um agradinho” a um conhecido, esperando alguma forma de reconhecimento e a outra envolve troca valores consideráveis em espécie ou em numerário.

Essa corrupçãozinha “miúda”, comummente aceite, prepara o caldo de cultura necessário à aceitação da outra, mais dura, mais pesada, que causa mais mossa, que prejudica mais os direitos de quem é preterido. Graças a 500 anos de inquisição, 48 de salazarismo e no nosso caso de séculos de colonia e de 40 de jardinismo, as pessoas habituaram-se a ser um povo cordato, a “comer e calar”, com um medo atávico de eventuais consequências, não exercendo os seus direitos e deixando que estes sejam espezinhados. Devido a esta cultura e graças à chamada autonomia, criou-se por cá um aparelho administrativo de muitos milhares de pessoas, sem que houvesse lugar a concursos dignos desse nome, com base na cor partidária, no amiguismo, na cunha. Hoje os tentáculos desse polvo imenso estendem-se a toda a vida a vida económica e social. Não há associação desportiva ou cultural, não há qualquer casa do povo, que não esteja devidamente controlada pelos rapazes e raparigas, tornando-se fácil ao corrupto fazer incidir a sua ação ao longo da cadeia hierárquica até produzir os seus efeitos no nível mais baixo, onde se desenrola a ação. Os vários elos da cadeia limitam-se a servir de caixas de ressonância ou correias de transmissão às vontades situadas mais acima, porque se não o fizerem e optarem por cumprir a lei, correm riscos pessoais e profissionais.

Como é que se explica que uma das três escolas do 2º e 3º ciclo do Funchal esteja a “rebentar pelas costuras”, integrando alunos que não são da sua área geográfica, ao passo que as outras duas dos mesmos níveis de ensino estejam com défice de alunos, tendo de aceitar o “rebotalho” que não interessa a esta escola de “filhos dos doutores”.

Hoje, dia cinco, li nas páginas deste jornal que a empresa preterida no concurso para o centro de inspeções automóveis, tendo sido escolhido o segundo classificado, um conhecido empresário com ligações ao regime o escolhido, vai responsabilizar pessoalmente os membros do governo, pese embora fosse o “medalha de mérito” o responsável por esta decisão. Congratulo-me pela decisão desta empresa porque é tempo de as pessoas começarem a dizer NÃO, e deixarem de cúmplices ou no mínimo coniventes com as atitudes corruptas e persecutórias dos governantes e das chefias. Só é pena que, duma forma ou doutra, sejamos nós contribuintes, mais uma vez, a “pagar o pato”, ou seja, a inevitável indemnização.

Para se minimizarem os fenómenos de corrupção, têm de ocorrer no mínimo quatro situações:

1 - As pessoas estarem conscientes de que é corrupção pedir a alguém que “dê um jeito”, que as coloque numa situação de vantagem a que não têm direito.

2 –Recusarem colaborar em atos de corrupção, mesmo que sejam “mandados” pelas chefias.

3 – Não tolerarem ser preteridos ou sujeitos a atos de corrupção e quando o forem, reclamarem e denunciarem.

4 – Obrigar à justificação de sinais exteriores de riqueza não explicados.

O fenómeno da corrupção atravessa os diferentes partidos, o PSD, com o BPN, o CDS com os submarinos, mais recentemente o PS, com Sócrates e com Pinho, situações desconfortáveis que têm impedido que se faça um estudo sério, que se debata exaustivamente o fenómeno e que se tomem medidas de forma a impedir e a penalizar fortemente estas situações. Se não o fizerem estarão a dar razão aos indivíduos anti- partidos e aos populistas.

Espero que os partidos políticos portugueses, em nome da presunção de inocência, não se voltem a opor à aprovação de uma lei que permita inquirir sinais exteriores de riqueza não explicados e não explicáveis.