Cooperação e desenvolvimento

Sob a capa da cooperação, a história (e os telejornais de hoje), mostram-nos igualmente exercícios de hipocrisia infinita

05 Set 2019 / 02:00 H.

Num contexto global, que se caracteriza pela impossibilidade prática de depender apenas de si mesmo, e mesmo que isso tenha sido sempre assim, embora em menor escala, qualquer sociedade, país ou região deste pequeno planeta, é obrigado a considerar a cooperação como essencial, no seu processo de desenvolvimento. A cooperação não é uma novidade já que do ponto de vista histórico e mesmo no quadro evolutivo biológico da espécie humana foi sempre um elemento presente e determinante.

Ao nível das relações intra e inter-grupos, a cooperação instalou-se como instrumento, espaço de negociação, moeda, forma permanente ou temporária de gestão, e em todas as demais combinações que as circunstâncias, necessidades, interesses e engenho humano foram gerando e procurando como forma de resolver, adiar ou, paradoxalmente, impedir aquilo que fosse mais conveniente. Sob a capa da cooperação, a história (e os telejornais de hoje), mostram-nos igualmente exercícios de hipocrisia infinita, caros, incapazes e incoerentes, seja nas chamadas relações bilaterais seja no multilateralismo que tem tanto de justo e humano quanto de ineficiente. Décadas e muitos milhões de cooperação pouco ou nada têm conseguido mudar ou ajudar de forma efectiva a diminuir o fosso entre os dois mundos deste mundo e o argumento de que seria ainda muito pior sem o que temos, não é aceitável. Ter desaparecido do léxico o termo subdesenvolvido, substituído por em vias de desenvolvimento, é uma das evidências da distância que ainda falta percorrer. E se se quiser ir por aí, então que se mude de “cooperação para o desenvolvimento” para “cooperação e desenvolvimento” considerando que, na segunda, o desenvolvimento e a cooperação terão sempre dois sentidos, mesmo que desequilibrados pela incapacidade e limitações de um dos lados. Enquanto esse lado, mais débil, não for parte activa, cooperante e igualmente doador, não haverá espaço para desenvolvimento para esse mesmo lado. Haverá sim, muito do que tem sido uma espécie de buraco sem fundo onde se vão metendo projectos, programas e muitos recursos em sentido único, sem que se consiga parar uma espécie de esquizofrenia diplomática alimentada por que verdadeiramente ganha e se desenvolve à custa da exploração directa e sem concorrência dos recursos, muitas vezes o verdadeiro motivo da cooperação para o desenvolvimento.

Cooperação e desenvolvimento deveria ter um outro sentido que, partindo do mesmo quadro, uma vez que a realidade é imutável, garantisse compromisso proporcionado e equitativo, orientado para algum avanço (igualmente dos dois lados) sem o que se anularia qualquer repetição, prolongamento ou manutenção do que não funciona. A falta de instrumento e independência de avaliação é um dos meios de perpetuar este jogo que não tem corrido tão bem como seria desejável. O desenvolvimento beneficiaria muito se houvesse cooperação na discussão e mudança das regras deste jogo.

Entretanto a vida continua e, não fora esta coisa de sermos demasiados para as condições materiais e recursos disponíveis, até se poderia continuar a brincar à cooperação para o desenvolvimento, enquanto entretenimento e lavagem da alma do lado dos que não dispondo de maravilhas da natureza (lei-se, recursos, energia, matérias primas, etc.), querem que os que nada têm continuem a nada ter porque há que garantir o oxigénio para respirar...

António Domingos Abreu