As casas transparentes

Só os grandes arquitectos sabem rasgar largas janelas e, ao mesmo tempo, dar uma forma a esse lugar secreto e obscuro onde pulsa o coração da casa

10 Jul 2018 / 02:00 H.

Com as suas quatro paredes em vidro, delicadamente pousada num magnífico parque de 24 hectares no Illinois, a casa Farnsworth, desenhada em meados do século passado pelo arquitecto Mies Van Der Rohe, cedo foi classificada como uma das obras primas da arquitectura do Movimento Moderno. A sua proprietária, a Dra. Edith Farnsworth, é que nunca esteve de acordo com esta classificação. Tanto assim que, despois de um áspero conflito judicial e emocional com o arquitecto, vendeu o magnífico templo em vidro que este lhe dedicara e, uns anos mais tarde, foi abrigar-se por detrás das quatro sólidas e espessas paredes de uma casa do século XIV nos arredores de Florença.

Desta breve parábola (que chegou a ser convertida em drama cinematográfico) é possível retirar algumas lições. Uma delas é que a arquitectura do Movimento Moderno, com sua obstinada predilecção pelas transparências, pelos vãos de grandes dimensões rasgados a toda a largura dos compartimentos, quase fez desaparecer o clima de clausura e aconchegante penumbra que caracterizava o interior da casa pré-industrial. Com as suas janelas entaladas entre grossas ombreiras de pedra e portadas feitas à medida dos nossos gestos, essa casa fala-nos hoje de um tempo que pulsava, talvez, a um ritmo mais pausado e a uma outra luz.

“Cheia de sol nas vidraças/ E de escuro nos recantos,/ Cheia de medo e sossego,/ De silêncios e de espantos”, a milenar casa mediterrânica - que José Régio assim descreveu na sua Toada de Portalegre - era construída em pedra, terra e madeira, para resistir à inclemência do sol, às torrentes de chuva e ao vento suão. No seu rude e frugal hermetismo, ainda hoje ela evoca as obscuras memórias de aconchego que, provavelmente, todos carregamos no nosso subconsciente: a clausura do útero ou, quem sabe, a penumbra da caverna onde os nossos antepassados se abrigaram da intempérie e de outras ameaças. Nesta casa era nítida a fronteira entre interior e exterior e para usufruir dos dias amenos havia os alpendres, espaços de mediação entre uma coisa e outra. Mas o princípio era sempre o mesmo: uma coisa era o dentro, outra, o fora.

Nas casas do Movimento Moderno, a ausência desta clara dicotomia (uma das ambições desta arquitectura asséptica foi diluir a fronteira entre interior e exterior, para que tudo apanhe sol) deu lugar, até, a algumas anedotas. Quando o arquitecto ‘moderno’ Philip Johnson convidou o seu velho colega Frank Lloyd Wright a visitar a casa transparente que desenhara inspirado no modelo da Farnsworth, este, ao entrar na sala, terá perguntado: - “Philip, estamos dentro ou fora de casa? Posso tirar o chapéu ou devo mantê-lo na cabeça”?

Wright, que nas palavras irónicas de Johnson era “um grande arquitecto do século XIX”, teve aqui a sua oportunidade de ironizar com a obra do colega. E fê-lo com a mesma elegância com que desenhava a sua arquitectura doméstica: só os grandes arquitectos sabem rasgar largas janelas e, ao mesmo tempo, dar uma forma a esse lugar secreto e obscuro onde pulsa o coração da casa, onde o fogo arde na penumbra. O interior do interior. Ninguém como ele soube fechar tão bem esse lugar sobre si próprio e transformar uma lareira na única janela da noite. E a verdade é que todos continuamos a sonhar com casas assim.

Rui Campos Matos