António Castro, ao futuro

António Castro não se limitou a escrever, a sua missão passava também por ler as histórias

18 Jun 2019 / 02:00 H.

O escritor António Castro partiu, para sempre, em busca do mistério que mora no outro chão do horizonte. Levou consigo uma folha branca para continuar a escrever dentro da magia de um tempo que já não é o nosso, e, ao lado da recordação de uma amizade sincera, deixou-nos a inquietude inscrita em cada um dos seus textos, como se pode ler num breve excerto de uma das suas crónicas que fala sobre os comportamentos em sociedade: “O jogo refinou-se a tal ponto que, hoje mais do que nunca, elogia-se em presença para desacreditar na ausência, afirma-se como «verdadeiro» aquilo que se sabe ser falso, dão-se informações nada fidedignas só para induzir o interlocutor em erro e todos nos sentimos num mundo artificial e de enganadoras impressões.”

Dedicou a vida à criação de mundos de fantasia recortados das palavras, foram histórias, personagens e letras de música que encantaram as crianças, roteiros, artigos de opinião, crónicas, romances, poesia e metáforas que desafiaram os adultos. Aos 14 anos, escreveu a sua primeira obra, “Poemas”, que conquistou logo os leitores, a partir dessa ousadia, nunca mais parou de publicar livros, assentes naquele tipo de linguagem simples, apenas ao alcance dos mestres da palavra, que toca o fundo das emoções.

António Castro não se limitou a escrever, a sua missão passava também por ler as histórias, contar os segredos e as aventuras imprevisíveis das suas personagens, procurando motivar os mais novos para a leitura e a escrita. Percorria, diversas vezes, as escolas, as bibliotecas, as feiras do livro, as rádios, os programas da RTP-M, centros comunitários e outras instituições, abraçado às personagens que saltavam dos enredos imaginados por “Uma amizade com asas”, “Na Asa da Ilha”, “No Reino dos Penteados”, “Da minha Rua... Chego à lua”, “Maior do que a lenda”, “A fogueira dorme na bruma” entre tantas outras obras. E, com a publicação do novo livro, “No reino das girafas”, em maio, já manifestava entusiasmo em reiniciar a sua caminhada incansável por todas as escolas a contar mais uma história, mas desconhecia que, afinal, o destino se aproximava da soleira da sua porta, cheio de pressas, frio e sem luz.

Exercia a sua profissão de professor na nossa Escola Gonçalves Zarco, lecionava as disciplinas de português e de italiano, criou e coordenava a Universidade Sénior da GZ, liderava o projeto “Arquipélago de leituras”, ajudava a dinamizar a biblioteca, organizava encontros intergeracionais, conferências, colóquios, tertúlias com escritores e outros artistas, concursos literários e escreveu a letra do Hino da Escola Gonçalves Zarco.

António Castro partiu, ficou a sua memória presa à qualidade da sua obra, à riqueza das suas aulas, à saudade de um homem bom e à sua expressão preferida: “Ao FUTURO”.

Rui Caetano

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