Andante de cidadania

Impossível ficar indiferente aos trágicos casos de violência, qualquer que seja o seu contexto

18 Mar 2019 / 02:00 H.

1. Não sei se enquanto contribuintes já nos apercebemos do alcance das rubricas do orçamento de Estado. De como ele é a ferramenta financeira da execução dos diversos programas políticos governativos nacionais, regionais ou autárquicos. Ou da perversidade dos seus desvios e ambiguidades. Coisas que escapam ao cidadão comum, mais preocupado em esticar os seus magros proventos à longevidade mensal das suas carteiras. Mas vamos aprendendo a conviver com a imutável contradição semântica da retórica governativa, quando se trata de exigências de classes profissionais ou de entidades financeiras. A uns responde-se não ser possível satisfazer os seus requisitos, sob pena de se agravar o défice das contas públicas, sermos penalizados por Bruxelas e/ou sujeitarmo-nos de novo a programas de resgate; para outros todavia, há toda a complacência e usa-se os mesmos argumentos justificativos que quando oposição se combateu, mas que enquanto governo se legitima, e afirma-se sem rebuço, não vir daí problema nenhum em termos de agravamento do défice, por estar salvaguardado por blá, blá, blá...

2. Comemorar dias especiais de um grupo profissional, ou de uma instituição poderá servir para nos lembramos de onde vimos e para onde vamos, nesta continuidade fluida que rege a vida das pessoas e das instituições. E assim preservar identidade e memória, face a futuros incertos para grupos profissionais envelhecidos, onde por via do alargamento da idade de aposentação e do não rejuvenescimento dos quadros, se vai perdendo toda uma aprendizagem intergeracional, essencial à passagem do testemunho, à construção de culturas, relações e saberes, e ao desenvolvimento profissional, a face humana das instituições. Questões que têm a ver com a evolução da sociedade, da economia, da sustentabilidade do Estado Social, mas também com opções ideológicas e políticas e que comportam uma dimensão ética, goste-se ou não. Coisas de que se deveria falar, nesta era de destruição de carreiras profissionais e relações laborais, a caminho da plena automação e robotização do mundo do trabalho, em substituição dos recursos humanos. E de como há um discurso e uma práxis que advoga a precariedade de vínculos de que resulta a supressão de direitos tão penosamente conquistados. Em benefício do cidadão comum, da economia, do ambiente, ou para salvaguardar dividendos financeiros, espectativas de lucro, metas empresariais, prémios de gestão?...

3. Impossível ficar indiferente aos trágicos casos de violência, qualquer que seja o seu contexto. O que leva um ser humano a atos tão extremos contra o outro será uma eterna questão angustiante... Quer seja contra mulheres, contra crianças e jovens numa escola, ou em qualquer local de culto religioso, ou ainda em cenários de guerra, o seu despoletar gera sempre indignação, repúdio, medo. Sintoma de conflitos individuais por resolver, incapacidade de empatia com a dor infligida ao outro, alienação completa da realidade, patologias de um mundo em que o avanço tecnológico parece rivalizar com retrocesso em humanidade... Como promover o alcance generoso da afetividade? Que socializações de amor, de carinho, de respeito pelo outro, se vivenciam? Em que estamos a falhar, como pessoas, como famílias, como escolas, como grupos sociais, como órgãos do Estado, como decisores políticos, como cidadãos, como seres humanos?

4. E os miúdos vieram para a rua proclamar a verdade que a lógica dos interesses nega: que o planeta está em perigo devido à insana e suicida exploração predadora com que levianamente abusamos da Natureza. Eles mostram que ainda há esperança na humanidade, que nem toda a racionalidade e sensibilidade está cativa dos jogos com que a tecnologia do lucro digital pretende embotar a sensibilidade dos mais novos. Que lição de cidadania! Bem hajam!

Júlia Caré

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