Águas do Funchal

30 Jan 2019 / 02:00 H.

Fernão de Ornelas, há cerca de 80 anos, promoveu um inédito plano de obras que transformou a cidade do Funchal. Em 12 anos, a cidade viu nascer infraestruturas de primeira necessidade como uma inédita rede de saneamento básico para acabar com a insalubridade que grassava nas suas ruas e o lançamento da rede geral de distribuição de água potável, aliada à construção de inúmeros fontanários municipais, muitos deles que chegaram aos nossos dias. Actualmente, como então, o Funchal vive um momento decisivo no que concerne às suas águas, sejam estas pluviais, residuais, para consumo humano ou para regadio.

A gestão de pluviais constitui um enorme desafio, pela crescente impermeabilização dos solos que se tem assistido no Funchal e consequente necessidade de canalizar as águas das chuvas, que outrora se infiltravam nos terrenos, para os cursos hídricos naturais. Noutros tempos, as estradas eram acompanhadas por levadas nas suas duas extremidades para permitir o escoamento de águas de quintais e telhados, num desenvolvimento integrado e planificado que a construção desenfreada se encarregou de secundarizar. Actualmente, identificamos a acumular de ligações ilegais destas águas limpas à rede de saneamento básico que, naturalmente, culmina na sua saturação nos períodos de maior precipitação, provocando rupturas, colapsos de condutas e danos nos arruamentos. A CMF promove a correcção destas situações com investimento em novas redes de pluviais e canalização de ribeiros, a implementação de medidas preventivas de protecção de redes e a fiscalização de afluências indevidas com a aquisição de um novo equipamento de vídeo-identificação.

Por seu turno, o sistema de saneamento básico apresenta um tríplice desafio, nomeadamente com (i) o aumento a taxa de cobertura, actualmente nos 92%, (ii) o redimensionamento de redes para acompanhar o desenvolvimento do tecido urbano com aumento da população flutuante e (iii) a adequação das estações elevatórias e de tratamento às necessidades presentes e futuras. Assim, a CMF tem investido não só na expansão da rede nas zonas altas e sector ocidental do concelho, mas também na substituição de redes no centro da cidade e na construção e reabilitação de estações elevatórias e de tratamento de águas residuais. Ainda nesta área, está em curso a instalação de tratamento primário na ETAR do Funchal (construída em 1993), para dar cumprimento a uma directiva europeia de (pasme-se) 1991, num processo reiteradamente engavetado durante mais de 20 anos por executivos municipais e regionais.

Na água potável, o desafio passa por reduzir as perdas historicamente elevadas no concelho (sempre acima dos 60%) e cumprir o adiado salto tecnológico. Assume-se como fundamental o trabalho de caracterização integral da rede, que permita a elaboração de um modelo hidráulico de base. Este trabalho tem alavancado decisões de investimento em curso, como a implantação de Zonas de Monitorização e Controlo, a instalação de equipamento para gestão activa de pressões e a ampliação do sistema de telegestão. Paralelamente, considera-se estruturante a criação de uma equipa de recuperação de perdas, com profissionais qualificados, contando para o efeito com a aquisição de viatura para identificação de fugas técnicas e desvios comerciais.

A rede de água de rega (dual) instalada no sector oriental da cidade, continua, desde 2012, em doca seca por indisponibilidade da ARM em fornecer a água necessária ao seu funcionamento.

Apesar da importância primordial deste tipo de intervenções, as mesmas foram sendo reiteradamente adiadas ou preteridas por obras mais ‘glamourosas’. Talvez pelo facto de, uma vez concluídas, ficarem ocultas no subsolo, a sua execução não seduz a maioria dos decisores políticos no atinente à conquista de votos. Assim, com a mesma coragem com que Fernão Ornelas afirmou que “se discutimos muito numa ideia, brigam todos e nada se faz”, e numa altura em que as “armas de arremesso político” assumem todos os feitios e tamanhos, urge priorizar o essencial em detrimento do acessório.

Modernizar as Águas do Funchal, criar melhores condições para os seus profissionais e apostar num plano de investimentos criterioso, inteligente e ambicioso, deve ser um desígnio municipal colectivo. Agora, como no início do Séc. XX, a cidade e os funchalenses ficarão a ganhar.

Miguel Silva Gouveia
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