A terceira onda

20 Mai 2020 / 02:00 H.

Já ali estava parado há algum tempo. Até frio sentia. Mas esperava pacientemente. Olhava para o horizonte, até que o vi transformar-se. Virei de bordo, apontei a terra e olhei para trás. Podia ver aquela linha de água desenvolver-se desde lá do fundo do calhau. Um monumento da natureza. Mas deixei-a passar. Ela “alisaria” o mar. Depois veio outra. Maior, mas igualmente bem formada. Já me ia lançar, quando dei uma última olhadela para trás e foi aí que a vi.

Confesso que no surf, tenho muita dificuldade em lidar com ondas de alguma dimensão. Talvez porque tenha começado tarde, mas o certo é que já fui apanhado várias vezes na “máquina de lavar”, sem que isso se traduzisse em surfar ondas, ditas, maiorzinhas. Mas numa prancha de windsurf, sinto uma outra segurança. Lá está, aparentemente tenho algumas horas naquela modalidade. E apesar de a “minha praia” ser o mar aberto, cada vez mais, gosto das ondas de costa. Como as que se podem encontrar no Paúl do Mar. Que são do melhor que se pode encontrar no mundo.

Ganhei coragem e lancei-me por aquela montanha líquida abaixo. Entrei na onda até ouvi-la quebrar, qual sinfonia para os meus ouvidos e, finalmente, soltei-me. As ondas anteriores haviam, tal como esperado, deixado o plano de água liso e isso deu-me confiança para dançar, desenhando “S’s” entre a cava da onda e a crista desta. Naquele bailado, nada mais existia além de uma onda, um equipamento de windsurf e uma criança vivendo o momento. Perfeitamente concentrada, em plena harmonia, deixando-se levar pelos elementos, esticando os limites do que lhe era possível. Foi só quando a cor do mar passou daquele azul profundo para a cor das rochas, que deixei aquela onda seguir, apenas para a ver explodir pouco depois no calhau.

Quando tudo acabou, larguei um grito, misto de alegria, realização, mas também de exteriorização da adrenalina que corria nas veias. E quando voltei a terra, sentia aquela paz interior de que tantas saudades tinha. Tal como tantas vezes acontecera no passado, sentia não haver desafio que não fosse possível abraçar, problema que não tivesse resolução. Ao vencer o meu mais básico medo, ao viver aquele momento de uma forma tão intensa, a vida voltava a tornar-se extraordinariamente simples. Dentro e fora do oceano.

João Rodrigues