A reboque

Vivem-se tempos onde o valor das coisas esvai-se na ilusão de que tudo chega de modo fácil

23 Out 2018 / 02:00 H.

Aos 7 anos era habitual ir passar os fins de semana ao Porto Moniz e serpentear de carro durante 4 horas a ER 101. Nessa altura, quando os supermercados eram uma miragem e os hipermercados ficção científica, o Sr. Baptista era o proprietário da mais completa mercearia da Ribeira da Janela, junto à central hidroeléctrica. Não raras vezes, lá parava com a minha família para comprar o que era necessário para o fim de semana, sendo a oportunidade para eu namorar um camião de plástico que se encontrava estacionado, semana após semana, entre as sacas de milho e feijão a granel. O camião de reboque era vermelho, tinha 6 rodas e quase o meu tamanho e devia custar mais de 100 escudos. Para mim, um dinheirão ao alcance de poucos, dado os 12$50 do bilhete do autocarro entre os Salesianos e o Funchal que a professora Maria José me emprestara no dia em que me esqueci do passe em casa.

Certo dia, lá por terás do balcão, o Sr. Baptista, quiçá farto de assistir às minhas voltas ao brinquedo, perguntou-me: “Então rapaz? Gostas? Pede ao teu pai para comprar”. Lembro-me de lhe ter respondido que o meu pai não teria dinheiro para mo comprar e que se calhar pediria ao Pai Natal para mo deixar no sapatinho. Para minha estupefação, o vendeiro saiu do balcão, entregou-me a corda de sisal presa na frente do camião e sentenciou: “Pega lá. É teu!”. Fiquei sem saber os motivos pelos quais mo ofereceu naquele preciso momento, mas o episódio ficou gravado na minha memória até hoje e zelei por aquele camião até ter ido para Lisboa estudar.

Resgatei este episódio à memória, a propósito de um conjunto de intenções orçamentais, defendidas ou anunciadas por quem se especializou em fazer oposição em proveito próprio que, na esmagadora maioria dos casos, acentuam desequilíbrios. Naturalmente, políticas que prevejam investimentos e uma diminuição da receita são sempre bem-recebidas pelos agentes económicos e pelos cidadãos. No entanto, dos agentes políticos espera-se a coragem de tomar as decisões difíceis que assegurem a sustentabilidade, rompendo com o facilitismo, qual vertigem demagógica, de tentar agradar a todos. O exercício de cargos públicos, apesar de continuar a rebocar carreiras durante largos anos, não deve ser encarado como um fim em si mesmo, mas antes um meio para melhorar a qualidade de vida e promover a justiça social.

Pessoalmente, acredito no princípio da redistribuição de riqueza, partilhado pelos ideais do socialismo democrático e da social democracia, onde a correção de assimetrias deve ser posta em prática com uma política fiscal justa e um conjunto de apoios públicos que garantam uma vida digna a quem tem a infelicidade de cair numa situação de precariedade socioeconómica. Numa sociedade promotora de igualdade de oportunidades, estes apoios teriam sempre um cariz transitório até à melhoria das condições dos beneficiários, naquilo que se costuma designar por ‘elevador social’. O Funchal tem apostado na criação de um modelo de apoios sociais nas áreas da educação, desde o pré-escolar ao ensino superior, na saúde, na habitação, na natalidade enquanto, simultaneamente, promoveu um desagravamento fiscal para as famílias em sede de IMI e IRS cujas taxas se encontram em valores mínimos históricos, devidamente compensado com a aplicação de uma derrama sobre os lucros das empresas com volume de negócios superior a 150 mil euros. Ainda assim, um esforço financeiro colossal.

Actualmente, vivem-se tempos onde o valor das coisas esvai-se na ilusão de que tudo chega de modo fácil e assistimos perigosamente a discursos assentes na demagogia e no populismo que a história tem mostrado conduzir a sociedade a mau porto. Impõe-se responsabilidade. Podemos exercitar a retórica com ideias inovadoras, contemplar projectos fabulosos e encher o coração com as mais nobres das intenções, mas na vida real não há magias nem quadraturas do círculo. Sem receitas não há dinheiro. E sem dinheiro não há investimento. Exige-se equilíbrio. Até porque na vida escasseiam senhores Baptistas e o vetusto camião já só reboca pensamentos.

Miguel Silva Gouveia
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