A Política do ‘Espetáculo’

É verdade que estamos hoje já muito distante dos grandes comícios políticos dos anos 80 e 90

16 Out 2019 / 02:00 H.

Regista um apreciado autor da nossa praça literária, formado em Economia e ex-jornalista, que o segredo e a chave do sucesso de um clube de futebol, para além do talento dos seus jogadores e equipa técnica, é a sua predisposição financeira, isto é, a aptidão para investir, para pagar/remunerar bem, o que lhe permite, evidentemente, comprar “bem”, lutar e vencer ligas/campeonatos e, por fim, vender, com elevado ganho, futuramente os seus ativos. Este é um hábil argumento para o êxito no mundo (e numa indústria que movimenta biliões de euros) do futebol!

Ora, na política – e sociedade – do ‘espetáculo’ em que estamos fundeados, o contexto é em tudo similar e os resultados das últimas Eleições Legislativas do dia 6 de outubro, manifestam-no luminosamente e com uma complacência geral.

Se, mais uma vez, o grande vencedor foi a abstenção (com 45,5%, atingindo, um novo recorde nas Legislativas), e cerca de 220 mil eleitores votaram nulo ou em branco (quase o equivalente à população residente na RAM), os 55% de portugueses que foram votar – e diz o politicamente correto que o povo é superiormente inteligente e sabe em quem votar, ou, como afirmou um candidato, “o povo é quem mais ordena e é mesmo [e] o povo vota sempre bem: se eu ganhar votou bem e se eu perder votou bem também, e eu respeito” (Rui Rio) – vivem agora, e elegem os seus representantes e figuras de Estado, deslumbrados e sob a cegueira dos media, mas também rendidos e acomodados a um mundo onde o entretenimento (a sociedade do ‘espetáculo’) é paixão universal.

Nas últimas semanas, declaravam alguns dos reverenciados comentadores políticos nacionais e regionais, nas mesas de voto, naquele que é o momento solitário de meter a cruz no boletim, o indivíduo-eleitor vota sempre em quem confia e em que lhe dará mais ‘bem-estar’ real e não virtual. Por outras palavras, vota em quem lhe garante mais dinheiro ao final do mês e do ano. Esta, admito, poderá ser uma parte da realidade, e talvez explique o êxito de quem cresceu em número de votos e o fracasso de quem tombou nos resultados, todavia, considero que algo mais elucida – e é causa e finalidade – daquilo a que todos assistimos.

Nos dias de hoje, os nossos atores políticos sabem – e alguns muito bem – como usar o poderoso arsenal de recursos e técnicas publicitárias que estão ao seu dispor: o chamado marketing político (alerto que os partidos políticos recorrem cada vez mais à contratação de dispendiosas e poderosas agências de comunicação, que lhes fornecem assessoria mediática e consultadoria política) oferece uma panóplia exaustiva de truques, jogadas e estratagemas, mais ou menos legítimas (e com a conivência de alguma imprensa escrita e audiovisual), para uso em situações peculiares, como é o caso das campanhas eleitorais. Recordo, ainda, que praticamente todos os líderes dos partidos políticos (ou principais candidatos) com representação parlamentar na próxima legislatura, tiveram palco político (e humorístico) num afamado programa, agora diário, do canal generalista de Queluz de Baixo e em horário nobre. Será isto coincidência?

É verdade que estamos hoje já muito distante dos grandes comícios políticos dos anos 80 e 90, por exemplo, em Atenas (o berço da democracia), de Andréas Papandréu, comícios onde mais de 500 mil pessoas – duas vezes e meia a população de Atenas, na antiguidade – se aglomeravam para escutar e apoiar a única voz que se fazia ouvir: a do dirigente político e candidato. Na sociedade/civilização contemporânea do ‘espetáculo’ e do virtual, o sucesso na política e na conquista do poder, está em saber dominar a agenda e o lóbi dos media, e, novidade, em saber usar e manipular/distorcer a realidade nas redes sociais (nos posts, twittes, fotos ou vídeos partilhados), tudo em nome de milhões de visualizações e dos eminentes likes.

É um facto que a internet democratizou e informação, mas as redes sociais atualmente já fabricam (e determinam) o pensamento dominante (não podemos esquecer os efeitos destas na eleição de Donald Trump, o 45.º Presidente dos Estados Unidos e, mais recentemente, de Jair Messias Bolsonaro, o atual Presidente do Brasil).

Na ‘Política do Espetáculo’, a que alguns também chamam política light, já não há ideologias, exercício do pensar, ideias, estratégias, visões ou desígnios nacionais para futuro do país e dos cidadãos. A tabela de valores é outra: o que importa ou conta é a aparência, a superfície, a pose, a imagem, o produto gerado e exibido a um público a quem os políticos têm de dar consolo, descontrair, ‘entreter’, pois os cidadãos vivem “vidas geralmente enquadradas em rotinas deprimentes e às vezes embrutecedoras” (Mário Vargas Llosa) e fazem pouco uso da memória. Neste novo formato que a política assumiu, desvaneceu-se a genuína figura do líder, do pioneiro, do estadista, do eminente cientista ou dramaturgo, isto é, do intelectual. Acabaram-se os compromissos cívicos ou morais dos homens de pensamento e de criação para com a vida pública, salvo aqueles que procuram ainda alguma autopromoção e exibicionismo mediático. Hoje, e provavelmente nas próximas décadas, a política dará mais atenção e peso ao gesto e à forma do que aos valores, convicções e princípios (a incompatibilidade indiscutível entre ética e política é por demais patente nos sucessivos escândalos/casos mediáticos dos últimos tempos). Em suma, os nobres valores da política são coisa do passado; agora o relevante é alcançar e conservar a popularidade, pois, como já sabemos, o povo é soberano e vota quando acha que deve votar e sabe sempre em quem deve votar.

Miguel Palma Costa