A estação de Medellin

Da Venezuela, habituámo-nos a ouvir boas notícias. A revolução bolivariana era cliente. Comprava, a Portugal, computadores, navios, construção, pernis pelo Natal

09 Set 2018 / 02:00 H.

Sempre fui céptico quanto à ideia de que uma imagem vale mais do que mil palavras. Elas, palavras e imagens, servem fins e propósitos diferentes. Não se regem pela mesma escala, e só muito raramente são intercambiáveis.

Algumas imagens, contudo, sobrepõem-se a qualquer cepticismo. É o caso do que se vê em Medellin, na Colômbia. À beira de uma estação, quando o dia ainda ia curto, largas dezenas de corpos despertavam entre tendas mal amanhadas, cobertores de cartão, e latas de comida vazias rolando. Encostados, descansando, comiam e bebiam com cálculo e parcimónia. O cenário não impressionava pela pobreza, mas sobretudo pela dimensão e organização daquele dormitório. Era estranho que tantos desvalidos partilhassem a sua má sorte ao relento, em aparente comunidade. Tudo destoava da imagem solitária e errante do sem-abrigo. Era sobretudo estranho que estivessem ali em Medellin, numa cidade original e entusiasmante, que tem cauterizado com nível as feridas do crime e da luta armada. Soubemos, depois, que eram venezuelanos. E vimos, depois, que não estavam só ali. Estavam nos semáforos mais atafulhados, suplicando por esmola com cartazes roçados pela chuva. Estavam nos pueblos nos arredores da cidade, vagueando nas bermas das estradas em grupos pequenos, carregando mochilas e roupas leves, rogando por comida, boleias, biscates. Estavam na conversa com Emilia, peruana, que nos falou de um êxodo sem precedente na América Latina, que desafia o mercado de trabalho, o controlo de fronteiras, e a tolerância dos vizinhos.

Estavam, também, na internet, onde se descobre que o Peru não é quem tem mais razões de queixa. A BBC estima que 600.000 venezuelanos tenham escapado para a Colômbia - seguem-se os Estados Unidos, que terão acolhido “apenas” 290.000. Os números não são oficiais, mas a experiência parece corroborá-los. A escolha da Colômbia é sintomática. Chavez era inimigo declarado do país vizinho. A rivalidade culminava na excessiva hospitalidade de Caracas para com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), uma guerrilha narco-criminosa de extrema-esquerda que foi, até ao ano passado, causa principal da instabilidade e violência colombianas. O apoio provocou inúmeros incidentes diplomáticos entre os dois países. Ainda hoje, o acordo de paz entre o Governo da Colômbia e as FARC vigente é uma ameaça ao regime venezuelano, e Caracas é uma ameaça à paz na Colômbia. Maduro prosseguiu aqui, como em tudo, na linha de Chavez, e acusa a Colômbia de ser a ponta de lança dos interesses imperialistas americanos, e uma das principais responsáveis pelo caos económico que se abateu sobre o país.

Apesar do desprezo oficial, é sobretudo para aí, para a ponta da lança do imperialismo, e para os próprios Estados Unidos, que os Venezuelanos fogem. Considerando que o terceiro maior destino é a colonizadora Espanha, é difícil não encontrar aqui o descrédito e a ruína do regime.

Não é a única ironia. Da Venezuela, habituámo-nos a ouvir boas notícias. A revolução bolivariana era cliente. Comprava, a Portugal, computadores, navios, construção, pernis pelo Natal. Coisas que não vendíamos a qualquer outro lugar, e que eram testemunho da gentileza e saúde das relações. Os políticos visitavam-se reciprocamente. Faziam-se acompanhar de comitivas volumosas, prestigiadas, sorridentes, escoltadas por uma comunicação social obsequiosa e prudente. O relato era exaustivo, mas leve. Descrevia razões de Estado, mas sobretudo pormenores pícaros, que abafavam os excesos daquelas personagens, e os convertiam em derivados da excentricidade, da inocência e da carolice.

Muito disto se fez com boas intenções. Com a consciência de equilíbrios diplomáticos difíceis. Com respeito e solidariedade para com a imensidão de portugueses, na sua maioria madeirenses, que lá vive. Com os interesses da comunidade em mente.

Mas não deixa de ser difícil essa memória. A catástrofe humanitária da Venezuela é colossal, trágica, e impressionante. Mas não era imprevisível. “Vemos, ouvimos e lemos”, não podíamos ignorar os ventos semeados por caudilhos inescrupulosos, populistas e ignorantes.

Convencemo-nos de que seríamos neutros, ou defenderiamos os interesses da Nação. De que não tínhamos escolha - o que talvez fosse verdade. Mas tivemos mil imagens, e nem uma palavra. Estivemos, com esse silêncio, do lado da fome e do desespero que desembarcaram na estação de Medellin. Não sei se por lá estaria um português, ou mesmo um madeirense. É possível. O Mundo é um lugar implacável.

Pedro Fontes

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