A boa política ao serviço da Paz

Não há desenvolvimento sem boa governação, não há boa governação sem respeito pelos direitos humanos

12 Jan 2019 / 02:00 H.

2019 será um ano com uma esperança contida. Pegando em testemunhos relevantes neste início do ano, como cristão, só posso afirmar que depende de todos nós transformar este estado de espírito numa esperança esperançada. Pois são várias as circunstâncias que marcam a actualidade e que tornam particularmente oportuna a mensagem do Papa Francisco relativa à política e à paz: o crescente absentismo eleitoral e desinteresse na participação política; a frequência de atitudes que denotam falta de ética da parte dos políticos de quem se esperaria um comportamento exemplar; a marginalização de jovens vítimas de desemprego; o apoio que em muitos países recolhem discursos baseados na hostilidade aos estrangeiros e fomentadores de ódio; a violência verbal para com os adversários políticos; a persistência de guerras perante o alheamento de muitos responsáveis políticos; o comércio de armas, clandestino ou com a cumplicidade de governos indiferentes ao destino que a estas é dado.

Neste contexto, é importante pôr em relevo alguns aspectos da referida mensagem.

Deve ser reafirmada a dignidade da política, “uma forma iminente de caridade” como serviço à vida e dignidade das pessoas, aos direitos humanos fundamentais (os quais não podem ser desligados dos deveres respectivos) e à paz.

A política assim concebida leva a estabelecer entre as gerações presentes e as gerações futuras laços de confiança e gratidão. Pois, a boa política promove a participação dos jovens. Reconhece as capacidades de cada pessoa e encoraja os talentos e vocações dos jovens, porque “cada um pode contribuir com uma pedra para a construção da casa comum” e “cada mulher e cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode libertar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais”.

A boa política promove a confiança no outro. Vivemos hoje um clima de desconfiança enraizada no medo do outro ou do estrangeiro que se manifesta em atitudes de fechamento ou nacionalismo que colocam em questão a paternidade universal, de que o nosso mundo globalizado tanto precisa.

Esperemos que nos processos eleitorais que irão ocorrer em 2019 ( e em que, normalmente tudo é prometido aos eleitores) as questões emocionais não sejam preponderantes no processo de tomada de decisão e que a discussão assente na verdade e transparência (minimizando-se a assimetria de informação), evitando-se desta forma, que a “maldição” caia sobre o “vencedor” (e, consequentemente, sobre os eleitores). Preocupa-me nomeadamente as eleições regionais na Madeira onde o populismo tenta a todo o custo que o perdedor seja o vencedor, porque o populismo socialista é anti-social, anti-ético e anti-democrático.

A paz não é um simples exercício de forças, nem pode assentar na ameaça e medo de retaliações. Manter o outro sob ameaça é reduzi-lo a objecto e negar a sua dignidade.

Não há desenvolvimento sem boa governação, não há boa governação sem respeito pelos direitos humanos, sem capitação das mulheres, da sociedade civil, sem imprensa livre.

Merecem especial cuidado e protecção as crianças vítimas de guerra (uma em cada seis, no mundo inteiro), algumas delas arregimentadas como soldados ou reféns de grupos armados.

A paz supõe uma conversão do coração e do espírito e nas suas vertentes pessoal e comunitária inclui três dimensões indissociáveis: a paz com o outro (o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre, a pessoa que sofre), a paz com a criação (um dom de Deus por que somos responsáveis enquanto habitantes do mundo e construtores do futuro) e a paz consigo mesmo ( o que supõe a recusa da intransigência, da cólera e da impaciência).

A política da paz apoia-se no espírito do Magnificat que canta por nós e por todas as gerações “... exaltou os humildes ... aos famintos encheu de bens... lembrado de sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre” (LC, 49-55).

Meus caros leitores:

Esta é a linguagem humana que nenhuma riqueza ou pobreza poderá substituir. Fazer sonhar é o primeiro passo para a necessidade de agir.

Havendo tantos meios para criar incitamentos ao ódio e á violência é fundamental preparar pessoas, grupos, instituições que tenham como objectivo a promoção da cultura de paz. A cultura da paz constitui um repto a mudanças profundas em todas as escolhas, da individual à global. Ela envolve em especial uma ruptura com a tradicional absolutização dos conflitos e do uso da força pelo discurso hegemónico das relações internacionais, e faz assentar aí a antecipação de um novo contrato social e ecológico de alcance planetário.

Isto significa que para alterar profundamente a vida social, não nos podemos contentar em alterar estruturas económicas, nem as actuações políticas, nem os hábitos de relação social, é preciso chegar às mentalidades que regem os modos de pensar e de agir dos homens. É por isso, no plano cultural, que é preciso actuar. A acção sobre as “culturas” foi um ponto fulcral de todo o pensamento social de João Paulo II onde, fui “beber” grande parte da minha formação social e política.

Bom ano para todos!

José A. Roque Martins
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