As levadas são um monumento vivo da cultura madeirense. O conjunto colossal das levadas é representativo do património cultural regional. Não me refiro apenas aos canais de irrigação, mas também às casas da água, aos relógios de água, às casas dos levadeiros, ao conjunto de saberes-fazer associados às práticas de regadio quotidianas, a todo aquele saber-fazer ‘antigo’ associado à construção, manutenção, gestão e uso das mesmas enquanto um sistema complexo. Convém recordar que a epopeia da sua construção trouxe consigo muitas narrativas de suor, sangue e morte, revelando também um conjunto de tensões socioculturais associadas à gestão, distribuição e uso diário da água.
Hoje, as levadas para além do seu uso original, servem uma indústria complexa, global e dinâmica. O turismo ‘resgatou’ as levadas, conferindo-lhes outro(s) significado(s) para além do simples conduzir da água para os poios. As levadas tornaram-se numa mercadoria, atraindo pessoas de todo o mundo. Quem visita a Madeira com a pretensão de calcorrear a montanha quer ver mais do que a sublime paisagem. Pretende que a sua experiência seja o mais rica possível. Deseja, de acordo com evidências científicas, adquirir um conjunto de informações associadas a este imenso património. Porém, esta situação nem sempre acontece. Juntando a isto, a multidão que muitos encontram nos espaços naturais, danifica não só o espaço, impedindo também que a experiência seja sublime. Refiro-me sobretudo ao Rabaçal e ao Caldeirão Verde.
Ora, preparar uma candidatura das levadas a património mundial da UNESCO não só acarretará desafios como trará problemas. Desafios, na medida em que existindo uma rede de levadas tão portentosa e existindo canais principais e secundários, quais é que serão os critérios para a escolha dos mesmos. Convém não esquecer que as levadas fazem parte da identidade regional, logo, existirá algum processo participativo por parte dos múltiplos actores no terreno, que envolvam também a população? Estará o conjunto de saberes-fazer incluído nesse processo? É que sem os mesmos, as levadas não servirão a sua principal função. Fará sentido avançar com este projecto sabendo que as levadas não estão inscritas na lista Nacional do Património Cultural Imaterial? Problemas graves surgirão quando o actual modelo de gestão não der resposta à procura turística, pela falta de estruturas de apoio, pela existência de programas idênticos em muitas empresas de animação, que leva à comercialização de quase sempre os mesmos percursos (existindo outras alternativas além dos percursos regionais recomendados), quer pela falta de dotação financeira para a manutenção e conservação das levadas muito fustigadas pelos temporais.
Filipa Fernandes




