O silêncio ensurdecedor da Igreja do Funchal

Frederico Cunha mantém a mesma postura, o mesmo nervosismo com que o encontrei em 1995 na cadeia de Vale dos Judeus, naquela que foi a primeira entrevista (concedida ao DIÁRIO)

13 Mar 2016 / 03:00 H.

Recentemente o Correio da Manhã, o jornal diário com maior tiragem em Portugal, foi ao Brasil entrevistar o padre Frederico Cunha, condenado a 13 anos de cadeia pelo Tribunal de Santa Cruz. Acusações? A morte de Luís Miguel, de 15 anos, em 1992 e homossexualidade tentada com menor.
Nenhum tribunal superior anulou a pena da primeira instância, tendo a sentença transitado em julgado.
Frederico, que nunca reconheceu o grave crime de que fora acusado nem a prova produzida no tribunal madeirense por diversas testemunhas, recolheu a Vale de Judeus, em Alcoentre. Fugiu, aproveitando uma saída precária em 1998, para o Brasil, via Madrid, nas barbas de todos nós, pondo a nu as fragilidades da justiça portuguesa, que não soube acautelar a execução de uma sentença judicial. Pelo que se soube então o padre foi de carro, tranquilamente, até à capital espanhola, apanhando depois um avião para o Rio de Janeiro. Como não existe acordo de extradição entre os dois países, não foi mais incomodado.
Passados 24 anos, aceitou falar para um órgão de comunicação português, mantendo a sua versão de sempre, insistindo que não assassinou nem é pedófilo. ? Durante a conversa mantida com o Correio da Manhã repudiou e zurziu os magistrados que o julgaram, enredando-se na teoria da cabala.
Em 1992 o caso do padre Frederico abalou a pacatez da vida madeirense. Numa terra profundamente católica o crime causou forte inquietação social. A Igreja protegeu o sacerdote. O bispo do Funchal à época, D. Teodoro de Faria, defendeu-o publicamente, dizendo que o padre estava a ser perseguido. A justiça não se incomodou com a pressão do bispo e aplicou-lhe uma pena exemplar. Depois, a Igreja remeteu-se ao silêncio. Até hoje.
Atualmente ainda há muita gente que se lembra da figura sinistra de Frederico Cunha, que conhecera D. Teodoro Faria em Roma, tendo sido depois nomeado seu secretário particular.
Entretanto, convém recordar, os tempos são outros. A Igreja, por indicação expressa do Papa Bento XVI, reafirmada por Francisco, mudou a sua postura e a sua conduta. O Vaticano quer mão pesada contra os padres pedófilos. O que era um assunto cinzento, tolerado e abafado pela Santa Sé durante séculos, passou a ser publicamente censurado e penalizado.
Por isso e mais que nunca convém saber, de forma cabal e sem sinuosidades, qual a postura da Igreja da Madeira sobre este caso. Por tudo e principalmente porque Frederico Cunha diz que continua a ser padre da Diocese do Funchal.
Porque motivo protegeu D. Teodoro, vivo e de boa saúde, até ao impossível o padre brasileiro? Houve ou não denúncias de paroquianos sobre o comportamento duvidoso de Frederico nas diversas igrejas em que serviu antes do caso ter rebentado, e que envolvia crianças?? Ao atual bispo do Funchal, D. António Carrilho, há também uma pergunta determinante a fazer: Frederico é ou não padre da diocese? Pode exercer o ministério? Foi enviada alguma informação ao Vaticano sobre este processo, na década de 1990??
Frederico Cunha mantém a mesma postura, o mesmo nervosismo com que o encontrei em 1995 na cadeia de Vale dos Judeus, naquela que foi a primeira entrevista (concedida ao DIÁRIO, depois de uma autorização expressa do diretor dos Serviços Prisionais) após a condenação. Na altura foi incapaz de olhar de frente para o jornalista, refugiando-se naquilo que diz ter sido uma farsa, uma inventona, que aconteceu por apenas ser brasileiro, sacerdote e eventualmente homossexual... ?Passaram duas décadas mas há muito por explicar, clarificar, num caso que continua a incomodar. À Diocese do Funchal exige-se clareza. Não é admissível que se mantenha no conforto do ruidoso silêncio a que se remeteu. Os tempos são outros, felizmente.

Roberto Ferreira
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