Reflexões

26 Nov 2015 / 03:00 H.

Do terror

Seja mais do que o exercício da imaginação este que nos obriga a pensar o mundo em que vivemos. O terrorismo, sua ameaça e seu espectro, no nosso quotidiano. O dantesco dos atentados em Paris. Dos atentados na Nigéria, no Egito, no Iraque, na Síria e no Afeganistão. O dantesco das causas e dos argumentos. Das razões como armas de arremesso. O medo, sua miríade e capilaridade, de que não poderemos transcender. O   terrorismo, desta feita com o véu do fundamentalismo islâmico, obriga a pensarmos coletiva e criticamente sobre a atual ordem mundial que, sendo global, não garante segurança e (com) liberdade aos cidadãos nos ínfimos cantos do planeta. De repente, mercê das várias dinâmicas (políticas, económicas, demográficas, religiosas e outras) tudo é tão perto e perigoso de nós e das nossas opções existenciais perante o histórico (para não dizer, o histérico) do processo da nossa contemporaneidade. O terror e o contra-terror, panaceias que passam ao largo dos nossos verdadeiros problemas e que não dão respostas às nossas angústias. Mais do que o exercício da imaginação. Lúcidos, perguntamos: Quo vadis?

Da Lusofonia

Num seminário internacional sobre a Cultura, Lusofonia e Direito de Autor na Era Digital, ocorrido recentemente na Fundação Calouste Gulbenkian, o Professor Manuel Maria Carrilho fez um vibrante apelo à problematização dos modelos de produção e de coisificação da Cultura no quadro da Lusofonia. O Professor chamava atenção sobre a necessidade de recentrarmos na ‘qualidades da língua portuguesa’, num esforço filosófico de nos apartarmos dos modelos assentes na quantidade dos falantes e de nos focarmos no peso estratégico da Lusofonia vis-a-vis a anglofonia, francofonia, hispanofonia, arabofonia e outra. Tal passaria, no cogito do orador, pelo assumir da língua portuguesa por parte dos dirigentes, cientistas, artistas e criadores, em várias instâncias da língua portuguesa. O exemplo dado sobre o paradigma de Lula da Silva, antigo Presidente do Brasil, em falar o português na Cimeira de Davos, em que tal fato tivesse posicionado a Lusofonia mais do que o triunfalismo dos estudos que abordam o PIB Lusófono e o show-off provinciano de esconder quem somos nas altas instâncias, obrigaria à mais séria e consequente reflexão, sobretudo na iminência de a CPLP comemorar, em 2016, o Vigésimo Aniversário da sua criação. Ainda, sem perder a lucidez, perguntamos: Quo vadis?

Da Globalização

Assente de que a Globalização tem vários pilares, pertinente será sempre colocar em crítica (não necessariamente em crise) o estatuto e o papel da Cultura. Para além do patrimonial, do identitário e da fruição, a Cultura como matriz das formas de ser e de estar no Mundo. Diria até para além dos conceitos como a Economia da Cultura, já que desconstruindo o jargão “não se trata da Economia, estúpido”. Colocar em crítica e sugerir a equação (e a inequação) que, sem recusar, não se submete ao fluxo de compra e venda, à ditadura da indústria do entretenimento e ao circuito fechado das novas tecnologias. Voltando à Lusofonia (e das suas múltiplas e diversas culturas), impõe-se-nos a exegese de cuidados e das responsabilidades que, uma metáfora do divertimento, sugerir-nos-ia um carrossel colorido e ruidoso, mas com cavalos fixos à plataforma rotatória e que, a diluir a profundidade e a essência, indicar-nos-ia não ser o único caminho a submissão ao Deus Dinheiro. Diante da Globalização, com suas virtudes e seus defeitos, há que entender a dimensão da nossa contemporaneidade e da nossa existencialidade, enquanto cidadãos lusófonos. E, se lúcidos, sem necessidade de conformismo, nem propensão de radicalismo, posto se exige afinal o equilíbrio complexo entre a identidade e a universalidade, insistimos: Quo Vadis?

Filinto Elísio