Perdidos no mar

Portugal tem a zona marítima menos monitorizada da Europa

05 Jan 2015 / 03:00 H.

Os acontecimentos recentes com a queda de mais um avião no mar de Java na Indonésia (A8501), despertaram memórias do MH370 que até hoje ainda não foi encontrado. Mais perto de nós, ficaram também as marcas de uma aeronave espanhola perdida junto à costa norte da Madeira e cuja maior parte dos destroços nunca foram encontrados. Porque continuamos a perder tantas vidas no mar?
O oceano é um meio inóspito, o sal e as diferenças de temperatura dão características corrosivas à água do mar onde poucos materiais resistem. Diferenças de salinidade e temperatura são igualmente responsáveis por separar as sucessivas camadas de água superficiais, intermédias e profundas. Correntes de superfície normalmente deslocam-se em sentido distinto ao das correntes de profundidade. O ‘peso’ (leia-se pressão) da água do mar nas zonas mais profundas do oceano é equivalente a uma pessoa a suportar 50 aviões Jumbo sobre si. Devido a esta separação das ‘camadas’ de águas a transmissão de sinais no oceano também fica muito perturbada. Somente 1% da luz solar consegue penetrar no oceano e por volta dos 200 metros de profundidade entramos numa zona de escuridão. Os sinais acústicos propagam-se por milhares de quilómetros de distância em zonas profundas sem nunca serem detectados desde a superfície, submarinos e mamíferos marinhos refugiam-se e/ou comunicam entre si através destes ‘canais’ de águas profundas com características diferenciadas. Toda esta dinâmica associada ao movimento e às características independentes das camadas de águas diferenciadas levam a que se algo cair no oceano, somente com muito boa informação e conhecimento prévio, conjugado com o recurso a alta tecnologia se consiga localizar e/ou antever o seu trajeto.
Estes acontecimentos serviram também para despertar as minhas reais preocupações sobre o fato de que na condição de ilha no meio do  Atlântico estarmos desprovidos de um sistema de monitorização permanente do oceano circundante. Com as tempestades de Dezembro de 2013 perdemos as únicas boias que tínhamos fundeadas junto à costa a monitorizar a agitação marítima. Nunca tivemos sistemas de monitorização permanentemente nas zonas profundas circundantes às ilhas e por isso desconhecemos em detalhe a direção e intensidade das correntes oceânicas que afectam o nosso arquipélago. Não dispomos de nenhum navio oceanográfico (sediado) na Região e por isso tampouco efetuamos medidas regulares às nossas águas. Isto resulta numa falta de informação de qualidade para calibrarmos os nossos modelos de previsão meteo-oceanográficos e neste momento (posso assegurar-vos com conhecimento de causa), nenhuma instituição nacional ou internacional tem capacidade para prever e estimar com precisão o transporte de ‘destroços’ e/ou materiais derramados na zona de oceânica ao redor do arquipélago.  Em pleno século XXI, vivemos num vazio de informação de qualidade neste domínio.
A minha inquietude agravou-se com a participação (Dezembro 2014) numa conferencia no Porto, onde ouvi responsáveis da entidade máxima a nível nacional pela geração de informação para dar apoio às buscas e salvamentos no mar, defender o aumento dos recursos para monitorizar a zona junto à costa de Portugal Continental. Quando questionado sobre como justifica que as Ilhas Portuguesas estarem desprovidas de meios de monitorização permanente do oceano, embora sejam estas as principais responsáveis por mais de 80% da ZEE (Zona Económica Exclusiva), o mesmo responsável respondeu não ter recursos nem meios para ‘dispersar’ esforços. As entidades nacionais sofreram cortes orçamentais e não dispõe de uma representatividade forte nas Regiões Autónomas. Acrescentou que a instituição sente-se mais confortável em manter os sistemas de monitorização na plataforma continental Portuguesa onde estão acessíveis os principais meios de suporte. Ou seja, somos (as ilhas) os principais motivos para Portugal reclamar mais mar mas temos (conscientemente) a zona marítima menos monitorizada da Europa.
Preocupa-me também que as entidades Regionais não reconheçam esta lacuna, nem se apercebam de que as entidades nacionais insistem em não considerar prioritário pagar pela monitorização oceânica de toda a ZEE Portuguesa, incluindo as ilhas. Em suma, tal como as Ilhas Asiáticas onde a monitorização meteo-oceanográfica é um assunto de somenos importância, estamos ‘orgulhosamente’ sós e perdidos no Atlântico e na eventualidade de acontecimentos e perdas no mar antevejo similares desfechos. Apesar das similitudes a vários níveis com algumas Ilhas da Ásia, consideramo-nos como Região desenvolvida da Europa?

Rui Caldeira Investigador e Docente Universitário Diretor do OOM-Observatório Oceânico da Madeira

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