Madeira, Auschwitz animal

02 Abr 2014 / 02:21 H.

Se a sociedade é uma espécie de selva legal, eu não sei que predador assenta melhor àqueles seres humanos que julgam ter uma legitimidade suprema para condenar a vida de outros seres vivos menos racionais mas feitos da mesma matéria orgânica irrigada por sangue morno. Que predador pode ter um alter-ego que não cabe na cabeça de um mamute e uma inteligência medieval do tempo da guilhotina? Eu não conheço nenhum animal assim.

A responsabilidade de termos implantado na Madeira um Auschwitz animal é de todos sem excepção. A começar por quem tem competências governativas e que nada tem feito além de sacudir da consciência colectiva o facto de a Madeira turística promover em surdina um campo de concentração onde tem sido decretado um verdadeiro holocausto que extermina 68% dos animais que são recolhidos das ruas e mantidos em cativeiro durante apenas um ano.

A forma desenfreada como se está a resolver este drama social que junta três problemas num só – sobrelotação do canil municipal do Funchal, a quebra considerável na taxa de adopção e o aumento do abandono dos animais domésticos – é intolerável. Só o atraso civilizacional de uma África profunda pode permitir que alguém seja levado para a morgue porque faltam camas no hospital. Da mesma forma, o simples facto de não haver mais espaço nas jaulas não pode ser pretexto para conduzir animais para os corredores da morte onde são exterminados, perdão, ‘eutanasiados’, que é uma expressão bem mais elegante e os bichos bem que podem agradecer por levarem desde mundo uma morte prematura, mas assistida e sem sofrimento no momento do fim.

Descrita assim, esta eutanásia parece uma anestesia para aliviar o peso da nossa consciência. No fundo, significa o mesmo: mais de 1.800 animais que tínhamos o dever de ter como companhia são mortos todos os anos. E desses, contam-se pelos dedos os que padecem de doenças terminais, dignas de uma morte assistida por um veterinário, também ele digno desse nome. É um autêntico extermínio que só encontra paralelo nas atrocidades que se cometem contra os direitos dos animais por esta terra fora e que todos nós temos o dever de denunciar.

Matam-se cães porque ladram e porque não ladram. Atiram-se os melhores amigos do homem pela ribeira abaixo, qual lançamento do peso, porque o latir irrita ou incomoda ou porque estão a mais. Infelizmente, os animais não têm outra forma de expressão. Não falam nem têm direito à indignação. Mas nós temos. E pelas razões mais primitivas. Envenenam-se os bichos porque remexem os lixos. Como se o instinto de sobrevivência tivesse de pedir licença. Como se o civismo de um corpo farto sem fome e assente sobre duas pernas fosse bem mais exemplar ou como se o abandono animal não tivesse em nós a sua causa e a sua cura. Se estamos fartos deles, entregamos-lhes o destino ao Caminho dos Pretos. Se eles estiverem fartos de nós, que fiquem para ali acorrentados ou enjaulados e que vão marcando pegadas sobre um pavimento de fezes e urina, quais fósseis rupestres, mantendo o posto de vigia. Fidelidade canina é isso mesmo. Queremos ter animais como companhia, mas de preferência sem direitos. Sem vacinação, desparatização, ‘chip’ e a essas despesas supérfluas. Sem esterilização. E se ousarem ter criação, o caudal da levada encarregar-se-á de lhes traçar a sentença de morte. Se ficarem amarrados pelo pescoço pode ser que se safem dos atropelamentos. Afinal, qual é a diferença entre um cão debaixo de um pneu e uma melga espalmada no para-brisas do carro? Nós continuamos assim: mais errantes, reincidentes e sem remédio do que os próprios animais.

P.S.:A Sociedade é a Imagem do Homem
O aperfeiçoamento da Humanidade depende do aperfeiçoamento de cada um dos indivíduos que a formam. Enquanto as partes não forem boas, o todo não pode ser bom. Os homens, na sua maioria, são ainda maus e é, por isso, que a sociedade enferma de tantos males. Não foi a sociedade que fez os homens; foram os homens que fizeram a sociedade.
Quando os homens se tornarem bons, a sociedade tornar-se-á boa, sejam quais forem as bases políticas e económicas em que ela assente. Dizia um bispo francês que preferia um bom muçulmano a um mau cristão. Assim deve ser. As instituições aparecem com as virtudes ou com os defeitos dos homens que as representam.
Teixeira de Pascoaes, in "A Saudade e o Saudosismo"

Ricardo Duarte Freitas
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