A vida sem a perseguição do pecado

A vida pode ser mais feliz se descontrairmos mais quanto ao pecado

16 Mar 2014 / 03:00 H.

A vida pode ser mais feliz se descontrairmos mais quanto ao pecado que tantas vezes subjuga a vida das pessoas. O pecado. Tudo é pecado… Nada é pecado… E por causa de a vida ainda estar tão marcada pela opressão do pecado, que se ensaiou dizer, tudo o que é bom ou faz mal ou é pecado.

Sempre o pecado a comandar a vida das pessoas e a coartar a felicidade de tanta gente. Porém, devemos sempre considerar que Michel Foucault ensinou: «Precisamos resolver os nossos monstros secretos, as nossas feridas clandestinas, a nossa insanidade oculta». E os últimos Papas foram lembrando que, a inconsciência do pecado é o maior pecado da humanidade dos nossos dias.

Ora quem sabe se nos toca mais saber que o maior pecado da Igreja hoje - e a Igreja somos todos nós, cristãos baptizados, é o pecado de omissão. E em que consiste este pecado? - Na conivência silenciosa com as estruturas sociais de injustiça e de violação dos direitos humanos, justificada, muitas vezes, em nome da prudência, da diplomacia exagerada, do diálogo e da verdade. Mas, que verdade é esta? - Não será antes pura hipocrisia… Digo isto com uma dor no coração, porque nasci na Igreja, sou Igreja e trabalho na Igreja.

Mas, o que importa mesmo é que, somos todos pecadores. Melhor será buscar constantemente a aceitação desta realidade do que andar frequentemente à procura de muitas ideias, palavras e atitudes para mostrar que se é o mais santo de todos. Há muito tempo que tenho a convicção que é preferível conviver com pecadores do que com santos, até porque estes não existem neste mundo senão nos altares das igrejas. A aceitação do ser pecador é muito importante para remediar a vida e encetar caminhos novos, delinear novas etapas e estabelecer novas metas.

Porém, não precisamos de andar sempre a pensar que tudo é pecado e que pouco ou nada devemos «gozar» desta vida precisamente por causa disso. Ser pecador não significa necessariamente que fazemos pecados a toda hora. Nem haveria possibilidade para isso. Ninguém é tão mau que não consiga algo de bom, nem que seja apenas um sorriso. Nessa hora, esse sorriso mostrou que o Reino de Deus está no meio de nós e é por isso que um provérbio escocês nos diga, «o sorriso custa menos que a eletricidade e dá mais luz». Para quê e porquê esta perseguição chamada pecado sobre a vida de cada pessoa, quando Jesus no Evangelho quando se debruça sobre este assunto é sempre suave, perdoa e faz esquecer? – Porém, implacável nas palavras e nos gestos contra o pecado social, religioso e político.

Por isso, precisamos isso sim de não massacrar tanto a vida de cada pessoa individualmente com a «vergastada» do pecado e antes nos concentrarmos no pecado estrutural, o pecado social e político que anda a massacrar a vida de todos e a rebentar com o mundo.

É preciso denunciar e chamar à responsabilidade quem a tem diante do pecado que sacrifica idosos, crianças e faz mergulhar famílias inteiras na pobreza. O pecado gerador de desemprego, de desespero e de suicídios. O pecado que mata os sonhos dos jovens que não encontram oportunidades para serem felizes no seu país. O pecado que torna uma sociedade insensível perante a solidão e o sofrimento alheios. Aquele pecado que impõe mentiras descaradas em prejuízo do bem comum. O pecado que não permite o respeito pelos outros. O pecado que é violência doméstica e abuso de crianças inocentes em qualquer circunstância. O pecado que faz existir uma justiça humana para pobres e outra para ricos. O pecado que faz de uma sociedade onde há superiores e outros inferiores. O pecado que ainda faz de uns serem escravos para que meia dúzia esteja a viver nos píncaros do luxo. Podemos continuar a lista.

O ideal de uma Terra povoada com uma raça de seres puros, santos e imortais, todos descendentes do primeiro casal humano, não existe nem nunca existirá, porque «Errare humanum est, ignoscere divinum» («errar é humano, perdoar é divino»). Assim, creio que haverá inteligência e sabedoria na humanidade para ser capaz de fazer dos fracassos verdadeiras vitórias. Basta que toda a vontade do bem se sobreponha a toda a vontade do mal. E isso não está na mão de nenhum santo. Mas na mão de todos nós que somos, felizmente, raça de pecadores que buscam na inquietude da dúvida acertar em cada dia na lógica do amor.

José Luís Rodrigues

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