A exótica lareira insular

05 Set 2012 / 02:00 H.

"A realidade de quem vive numa ilha, torna-nos ilha para os recursos. Ficamos longe da atenção dos detentores de orçamentos e das fontes de financiamento, vendo confirmada, muitas vezes, a realidade de que quem está perto da lareira, melhor se aquece". A surpreendente, requintada e incisiva metáfora utilizada pelo comandante regional da PSP, Miguel Mendes, no aniversário da instituição na Madeira, para aludir à situação limite em que opera a polícia, acaba por ser uma fantástica analogia que elucida bem a obstinação e a gula do Governo Regional que, há cinco anos, decidiu intitular-se dono e senhor das multas do trânsito pagas pelos madeirenses, abocanhando todo o bolo das receitas geradas pela PSP, abdicando de partilhá-las com a entidade autuante, como aliás, acontece em todo o país.

O murro na mesa impunha-se há muito, mas ninguém ainda tinha tido a coragem e a frontalidade de sugerir, sequer, a devolução da tal lenha que Alberto João Jardim se apoderou para manter acesa a sua exótica lareira e a sua área de conforto onde executou uma gestão financeira criminosa, insensível às preocupações da PSP que se arrasta em chaços, as esquadras degradantes e os agentes esfarrapados e mal pagos, e alheio a um povo que, ao contrário de sua pessoa, não tem direito a guarda-costas nas ruas para proteger de banhos de cerveja ou de outros mais contundentes, nem polícia à porta de casa, sendo obrigado a viver vergado pela carga fiscal resultante dos devaneios do seu governo e pela caça à multa que tanto jeito dá aos cofres da Região em tempos de aperto.

Miguel Mendes lembrou, e bem, que a lareira onde Jardim se aquece é caso único no país. Enquanto madeirense, não me revejo naquela portaria parasitante engendrada pelo PSD-M como acto de puro revanchismo para causar réplica no governo de José Sócrates. A PSP foi um fácil bode expiatório e arma de arremesso utilizada até ao extremo por Jardim na sua hilariante intifada contra a Lei das Finanças Regionais. Mais uma vez, que se lixem as pessoas, a segurança pública, o sentimento de justiça e o funcionamento da legalidade democrática. Nada supera o plano maquiavélico que usa o estatuto político-administativo da Região ao nível da esperteza saloia, para sacar à República a ponta de uma qualquer fonte de receita. 

E assim foi. O Estado Português manteve a obrigação de garantir o pagamento dos salários de mais de 700 polícias, a manutenção das esquadras, a renovação da frota de viaturas, as facturas nas oficinas, as fardas dos agentes. Mas viu subtraída a única fonte de financiamento para assegurar a operacionalidade do Comando Regional da PSP. À beira da lareira, de um laranja vivo, Jardim cumpriu a ameaça: Nem mais um cêntimo para a polícia! Esses cubanos que paguem lá a despesa com a nossa segurança pública mas que esqueçam os 4 milhões de euros pagos anualmente pelos madeirenses. Como pode a política descer tanto? Que destino tem dado o Governo Regional a essa receita? A saúde, a educação, os transportes, os bens, os combustíveis, a justiça, a vida está mais cara... Isto não é governar. Isto é fazer gincana política-partidária provinciana. 

Muito sinceramente, eu prefiro ver metade do dinheiro das multas a reverter para as entidades autuantes (a exemplo do que acontece com todas em todo o país), a favor do funcionamento das polícias, da segurança dos madeirenses, da formação dos agentes, da renovação dos meios de combate aos crimes e às infracções - porque nós e os polícias merecem uma PSP melhor do que aquela que temos - do que saber que esses milhões de euros entram no Orçamento da Região para servir de lenha para espetadas nos comícios. Ou para pagar jornais que ocultam a criminosa dívida oculta da Madeira. Ou para aquecer lareiras que mantêm acesa a chama da tirania do poder. 

A visita do ministro da Administração Interna foi cirúrgica. Não sejamos ingénuos: o aniversário do Comando Regional da PSP foi simplesmente uma oportunidade soberana. Miguel Macedo e o director nacional da PSP, Paulo Valente Gomes, traziam na bagagem essa sempre difícil missão de apertar o cerco a Alberto João Jardim. Tal como é seu apanágio, nem pia na presença dos convidados. Mas mal embarcam com destino a Lisboa, soltam-se os canhões de pólvora seca. Não tem grande margem de manobra, mas preparemo-nos para o fogo de vista no comício no planalto. Com ou sem cerco, o circo continua.

Ricardo Duarte Freitas
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