Os santos e os arraiais religiosos

É preciso travar estes grandes gastos em nome de Nossa Senhora, dos santos e do Santíssimo Sacramento mascarados de promessas

26 Ago 2012 / 02:00 H.

A Notícia em altas parangonas anuncia que 16 festeiros gastaram 310 mil euros num arraial ao Santíssimo Sacramento na Paróquia da Boaventura. Onde se aferiu que o mais importante que apraz salientar é o seguinte: «É uma festa que ficará nas bocas do Mundo». Pelas piores razões e se ficar será negativamente. Sem dúvida que ficou nas bocas do mundo, mas entalado na garganta do Santíssimo Sacramento, que se engasga com tudo o que seja injustiça e caridade barata. Ou quiçá profanação de alto grau. Seria possível a sobriedade e ninguém se indignaria com tamanhas barbaridades.
Duas coisas. Primeira há um povo «superior» que se amarfanha, corre atrás da pimbalhada e profanação que tudo isto representa. Segundo, alguns indignaram-se com isto, outros apontam que resulta de uma promessa e que o dinheiro pertence aos 16 cavalheiros, que podem fazer com aquilo que é seu o que muito bem entendem e que quem se indigna está invejoso.
Sim, pode até ser uma promessa, mas por favor, sejamos coerentes e não se indignem com as pernas a escorrer sangue quando vemos pessoas a se arrastarem no Santuário de Fátima. Também cumprem uma promessa e fazem-no porque acreditam, em nome da fé, dizem.
Uma ressalva. Sou obsessivamente contra esta forma de pagamento de promessas, mas também o sou com as outras que implicam gastos exorbitantes, em qualquer tempo e contexto, especialmente nestes, onde se sabe de gente a passar fome. Um arraial com este gasto astronómico é um ultraje a quem se alimenta com a caridade dos outros, porque está no desemprego e não tem o suficiente para matar a fome dos seus filhos. Mais ainda, escute-se o que diz o Catecismo da Igreja Católica: «Os bem da criação são destinados a todo o género humano. O direito à propriedade privada não abole a destinação universal dos bens» (nº 2452). Nem mais.
 É preciso travar estes grandes gastos em nome de Nossa Senhora, dos santos e do Santíssimo Sacramento mascarados de promessas. As festas religiosas patrocinadas por festeiros individuais ou em grupos são uma questão muito melindrosa para os párocos, num instante se levanta uma guerra terrível contra a Igreja e contra os padres. O povo gosta de festas e, por isso, um ou mais festeiros não abdicam de algumas horas de glória por dinheiro nenhum deste mundo. Muito pelo contrário, em nome dessa vaidade não olham a custos para levarem adiante o que pretendem e serem olhados como heróis. Ó vã glória em ser grande tão pouco tempo.
Assim, alguns poderão ainda crucificar o padre ou os padres das paróquias onde se realizam estes exageros. Não é tarefa fácil educar ou travar estas megalomanias. Porque a maioria do povo aceita e aproveita muito bem estes momentos - enche-lhes o ego que se faça uma festança mais forte na sua paróquia do que a festa da paróquia vizinha. E quando se trata de comezainas e festanças bastam alguns para incendiar o povo contra os padres e contra a igreja. Aos padres nestas situações, reza a experiência, que o melhor é «deixar andar», são apenas dois ou três dias, no caso 5 dias de glória para as vaidades e os abusos. Dirão, é uma atitude que revela medo, covardia, nada disso está cheia de sabedoria, porque se não se ganha amigos com tal atitude, também não se ganha inimigos. Por isso, deixa andar. Nós lá teremos o ano inteiro para cumprir o nosso dever e tentar «educar» o povo para o essencial. Porém, não devemos ser coniventes com os abusos e, o quanto possível, não participar ou selecionar muito bem em quais as actividades festivas é que devemos participar. O exemplo vindo de cima nestas coisas ajuda e muito.

José Luís Rodrigues