A escola do marimbanço

17 Dez 2011 / 01:00 H.

Eu sei que as dívidas do Estado são pagas de forma diferente. Sei que não há limites para o descalabro dos juros. Que desde sempre vigora a política de deixar obra feita e quem vier a seguir que pague a factura. Também sei que o Estado se diz pessoa de bem. Cumpridor, um poço de virtudes. Sei ainda que já tenho idade para não acreditar no Pai Natal, mas assumo essa fraqueza de me deixar levar por boas intenções. E, de repente, apanho umas quantas desilusões. A última tem a ver com a inusitada sabedoria de políticos - alguns já retirados e outros que já de lá deveriam ter sido retirados - e que se resume a isto: afinal, eles até sabiam o que fazer, só que não os deixaram. Por isso... marimbaram-se.
Esta nova escola política portuguesa teve, em poucas semanas, três protagonistas. Primeiro, imagine-se, foi o nosso presidente do Governo, um visionário nestas técnicas avançadas da gestão da coisa pública - como se vê! - que, soube-se agora, andou a gabar-se já há anos, em Lisboa, de que sabia como tratar das dívidas. Basicamente, dizia Jardim, a estratégia era adiar o pagamento das dívidas, renegociar, criar calotes em cima de calotes. Aqui, faça-se justiça, foi verdadeiro: nos últimos anos não fez outra coisa a não ser obras à conta de dívidas, grande parte delas escondidas.
A seguir, para minha ainda maior surpresa, confesso, foi José Sócrates a falar de alto, lá em Paris, dizendo que sempre estudou que as dívidas de pequenos estados como Portugal não são para se pagar. Quando muito, para se ir pagando, terá dito o estudante de Filosofia com ares de doutor em Economia. Honra lhe seja feita, pois também a sua principal obra foi empurrar o País para a frente mas atrelado a uma dívida impagável.
Agora, um desconhecido líder do PS de Aveiro e vice-presidente do grupo parlamentar socialista na Assembleia da República, veio a terreiro defender a mesma linha. Disse Pedro Nuno Santos que está a marimbar-se para o problema dos credores, dos que nos emprestaram dinheiro para fazer o que não tínhamos.
E vão três!
Sem falsos moralismos, confesso que também estou mais preocupado com o desemprego na Madeira do que em pagar os submarinos que a Alemanha levou Paulo Portas a comprar. Que diabo! Primeiro está a nossa casa, depois a casa da senhora Merkel. Primeiro está a nossa vidinha, depois a dívida que havemos de pagar com juros altíssimos fixados por agiotas da banca e dos Estados mais ricos.
O problema não é esse. O problema é esta cultura de incumprimento que começa a fazer caminho entre as mais altas figuras do Estado. É o deixa andar na sua maior expressão. É o abandalhamento desta gente, irresponsável mas consequente, que me preocupa. A ligeireza com que gozam dos outros é, sem tirar nem por, a mesma com que nos gozam diariamente.
No caso português, estão milhões de pessoas com o credo na boca porque políticos como Sócrates - e antes dele Santana Lopes, e antes dele Durão Barroso e antes dele António Guterres e antes dele Cavaco Silva - gastaram o que tinham e o que sabiam não ter para ganhar votos e se perpetuarem no poder. A factura, pesada, chega agora e quem a vai pagar? Eu e todos os milhões de contribuintes portugueses. No caso da Madeira a situação é a mesma porque políticos como Jardim - e antes dele Jardim, e antes dele Jardim (vezes oito governos Jardim) gastaram o que não podiam e viciaram-se no poder. Estão de tal forma agarrados que ninguém os tira de lá tão cedo. Resultado, a factura, impiedosa, chega agora e quem a vai pagar? Novamente eu e todos os milhares de contribuintes da Madeira que vão apanhar pela medida grande.
A explicação para tudo isto, afinal, é relativamente simples: a política portuguesa, e a Madeira é disso bom exemplo, está ocupada por gente que está a marimbar-se para os cidadãos. O que conta, como para os agarrados, é injectar mais poder. E depois, mais poder ainda! Sempre mais poder. É carregar até a mula ajoujar.
Queria ver a força destes políticos se o povo honesto e trabalhador fizesse o mesmo. Se se marimbasse massivamente para o fisco, se deixasse de pagar impostos, se deixasse de pagar contas de água e luz. Se deixasse de dar de comer a quem lhe morde a mão. Seria o fim da escola do marimbanço.
Três exemplos recentes de puro marimbanço:
1 - A dívida da Região à lucrativa e poderosa indústria farmacêutica leva-nos couro e cabelo. Só em juros, já lá foram mais de dez milhões de euros. Alguém está preocupado com isso? Cá nada! Estão a marimbar-se para isso.
2 - Todos os contribuintes madeirenses vão ser chamados a pagar os desvarios do Governo Regional. Aumenta-se os impostos, tira-se a trabalhadores, pobres, novos e velhos. Imagine o Leitor quem fica de fora dos cortes: os partidos. No 'jackpot' deles ninguém mexe. Estão a marimbar-se para isso.
3 - É um caso insignificante mas que mostra o ridículo do marimbanço no seu expoente máximo de provincianismo bacoco: a Escola Secundária do Galeão adormeceu um dia com este nome e acordou no dia seguinte como Escola Secundária Dr. Eduardo Brazão de Castro. Prioridade da Escola: esbanjar dinheiro dos contribuintes em resmas de papel timbrado com o nome do ex-secretário regional. É óbvio que a Escola, e quem agora lhe dá o nome, estão a marimbar-se para isso.
PS: Uma atrevida sugestão à Universidade da Madeira: com a profusão de mestrados, não caiam na tentação de abrir um em Técnicas Avançadas de Marimbanço na Administração Pública pensando que será dinheiro em caixa. Puro engano: nessa ciência temos nós doutores de sobra.
 

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