A falta de razoabilidade de um processo

Para que serve o meu voto se o país será dado em "outsourcing" durante o período de governação do próximo governo?

18 Abr 2011 / 02:00 H.

A 5 de Junho vamos ser chamados às urnas. Eleições, para quê? Porque assim manda a democracia. Cumpre-se um princípio universal.  Mas como eleitor consciente preciso saber mais. O meu voto vai decidir o quê? Nos próximos anos o país vai seguir em Portugal a política  imposta pelo FMI e pela União Europeia. São eles que irão formatar à sua medida o nosso destino. A saber: reorganização dos municípios, das juntas de freguesias, das empresas públicas, das empresas municipais, da política de preços de transporte, água, electricidade, salários, emprego, transferência de verbas para as regiões autónomas, financiamento das universidades, cortes nas despesas de saúde, educação, segurança social, aumento da idade da reforma, despedimentos, ou seja, vão decidir tudo ou quase tudo porque, que eu saiba, o FMI e a UE  não podem, ainda, decidir sobre baptizados ou casamentos. Mas nesta questão sacramental, há umas uniões e bênçãos que vão ter, de certeza, o apadrinhamento do FMI e UE. São eles os casamentos políticos.  Eles que não se entendem sobre as taxas de juro e o prazo de permanência na gestão do país, vão querer impor alianças aos partidos nacionais. Então, se o próximo governo, composto seja lá porque partido/partidos for, tem de aplicar a receita destes dois "nossos amigos", para que serve o meu voto? E como escolho em quem votar? Será que os partidos vão explicar esta "quadratura do círculo", esclarecer este povo confundido e baralhado, com medo de ler as notícias e ouvir telejornais, com a palavra crise na boca e nos bolsos, e sem perceber patavina das guerras inúteis e prejudiciais entre partidos? Em termos de comunicação, o ruído é tanto que deixou de haver mensagem. Estão a falar sozinhos, nitidamente. Não há retorno porque a linguagem cifrada ergue um muro entre os que falam e os que gostariam de ouvir um esclarecimento cabal sobre a situação em Portugal.

A moral de uma história amoral leva-me ao início deste texto. Para que serve o meu voto se o país será dado em "outsourcing" durante o período de governação do próximo governo? Será que devo escolher pelo fato, gravata, pela fotogenia ou telegenia dos personagens, se me provocam o  riso ou não, o humor nestas coisas é importante, ou terei outra alternativa?  Qual? Não sei. A inoportunidade de todo este processo eleitoral - haveria ou não soluções intermédias? - arrasta o país para dois meses de inutilidade, agravando a situação e hipotecando o futuro colectivo nas mãos de entidades cujas decisões não são escrutinadas pelo povo português. Então,  o que é vamos fazer a 5 de Junho? 

Lília Bernardes, jornalista do DN-nacional, na Madeira

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