Trazemos por viver ainda uma infância

A infância não é uma nostálgica trégua que o nosso passado encerrou...

25 Dez 2010 / 03:00 H.

O entusiasmo com que os pequeninos vivem o Natal mostra bem como há uma percepção do Mistério da vida que lhes está próximo. Sem precisar de grandes recursos da racionalidade eles avizinham-se do essencial, conduzidos sobretudo pela linguagem insinuante dos símbolos. E não há dúvida que, nesta simplicidade tão singular, as crianças protagonizam formas de compreensão profunda daquilo que o Natal constitui.

Mas como acontece com as mais importantes narrativas da Infância, o Natal tem um endereço mais acima: pede para ser lido e decifrado por um coração adulto. Ainda que caiba às crianças a expressão mais vibrante do que nestes dias se celebra, os efectivos depositários da mensagem (isto é, aqueles que mais incondicionalmente a podem acolher) são os adultos. O dano mais pernicioso do dito "Natal comercial" é a manutenção de uma retórica infantilizada e equívoca, que oculta a mensagem aos seus verdadeiros destinatários. De repente, parece que o Natal é apenas uma história que existe para colocar um sorriso deslumbrado no rosto das crianças e esquecemos que é no fundo complexo da alma de um adulto, nesse oceano emaranhado e confuso, que o acontecimento do Natal vem despertar uma centelha.

Se olharmos para o enredo natalício, mesmo no modo sóbrio como os Evangelhos o relatam, percebemos que nada é cor-de-rosa. O que os seus actores vão viver é uma história de instabilidade, perturbação e desconcerto. "O que é que nos aconteceu?" - ter-se-ão perguntado repetidas vezes Maria e José, mas também os pastores acordados em sobressalto ou os magos vindos de longe. "O que é que nos aconteceu?". E não tinham à mão (como nós não temos) tranquilizantes respostas, mas sim um caminho que lhes era proposto na surpresa, na maturação paciente e na confiança. O próprio local onde a cena se desenvolve, um modestíssimo piso térreo que servia de refúgio aos animais, mostra bem a implacável dureza das circunstâncias. Mas doutra maneira como é que esta divina história poderia servir de modelo para todas as histórias humanas?!

O Natal de Jesus, o mistério da sua encarnação, reconfigura radicalmente a condição humana, porque deposita nela inventivas possibilidades. Estamos habituados a ver no inelutável ciclo das estações, Primavera, Verão, Outono, Inverno, o modelo da própria vida. Julgamo-nos chegados, cada vez mais chegados, de uma Primavera ou de um Verão que julgávamos invencíveis ao irremediável obscurecer do Outono ou à íngreme solidão da paisagem no Inverno. O nascimento humano de Deus inaugura, porém, um esperançoso contraciclo: a nossa vida deixa de explicar-se como uma marcha do nascimento para a morte, para efectivar-se na imagem de um incessante renascer. Contemplando a manjedoura do Deus Menino, qualquer que seja a nossa idade e o peso dos nossos anos, sentimos como real aquele verso de Pedro Homem de Mello: «a minha [a nossa] infância ainda não morreu». De facto, a infância não é uma nostálgica trégua que o nosso passado encerrou, mas o futuro que um modo novo de entender a história nos entreabre. Trazemos por viver ainda uma infância - é o que o Natal nos segreda.

J. Tolentino Mendonça

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