“Um tempo de civilização”

18 Ago 2019 / 02:00 H.

Nesta ilha de arraiais, muitos deles descaracterizados pela importação de conceitos comerciais incompatíveis com valores e tradições, alguns costumam cantar alto que “a festa está rija, está tudo contente...”.

É de rir, sobretudo quando são públicos e notórios os motivos de descontentamento. As disparidades são mais do que muitas. Quem na passada semana foi ao Congresso de São Jorge e ouviu o que se perspectiva para a Costa Norte - disponibilidade que os autarcas daquelas bandas lamentavelmente não revelaram ter! - percebe que o futuro exige bem mais do que ‘slogans’ e deliberações circunstanciais, que implica rumo definido, o tal que por agora se resume a uma navegação à vista, geradora de êxodo e de assimetrias, de envelhecimento e de solidão, de abandono das terras e de incerteza.

O problema é que nesta ilha inclinada as desigualdades nem sempre são questionadas, pois entranham-se vertiginosamente nos anestesiados com compensações avulsas, ‘vouchers’ e promessas, borlas e subsídios, sorrisos e ‘soundbites’. Gente que às tantas nem só não dá pelo estado deplorável a que isto chegou, como bate palmas ao insulto, partilha o ódio, comenta sem ler e sentencia sem provas. Gente carente de mundo, que usa de argumentação infundada para se notabilizar e, pior, denota propensão para ajustes de contas primários. A propósito daquilo que escrevi neste espaço no passado domingo, houve alguém bem identificado a sugerir nas redes sociais formas concretas da Madeira se livrar de mim, qual “problema” a resolver. É este o expediente usado por aqueles que não toleram a diversidade, os que não discutem ideias e os que julgam que com umas ameaças mais ou menos musculadas o mensageiro sai de cena. Enganam-se. Por muito que tenham costas largas, a protecção do sistema e alguns ‘likes’ não nos calam.

O povo dito “estóico e valente”, ou “superior” na versão jardinista, é por vezes mal aconselhado por lideranças prolongadas, viciadas no populismo e no clientelismo, ou então influenciado por visões que turvam a lucidez. É no que dá ter cidadãos reféns dos sermões de encomenda e de olhos vendados, para que se limitem ao óbvio.

Não admira por isso que um bispo atento aos sinais dos tempos e consciente de que a Igreja que lidera ainda é fermento e sal numa sociedade que maioritariamente professa o catolicismo tenha feito um apelo para que a campanha eleitoral em curso tenha valores e seja fortemente marcada pela “elevação do debate”, “respeito pela dignidade dos intervenientes” e pela diversidade de propostas.

O apelo ao bom senso, para além de oportuno, é redentor. Exceptuando aqueles que, legitimamente, por convicção e opção de vida, têm da Igreja Católica uma visão mais redutora no estado laico, quem aposta as fichas todas nos “ataques pessoais”, nas “calúnias”, nos perfis falsos e na mercearia eleitoral não deve ter achado piada ao regresso das homílias que são notícia, que motivam reacções, que sacodem o povo e que o liberta do marasmo institucionalizado. Há assim mais uma voz geradora de equilíbrios num tempo em que é maior a sede de poder do que a percepção da utilidade da intervenção política.

O que leva muitos dos 1.500 candidatos a disputar eleições não é exactamente aquilo que deles se espera. Basta ler e ouvir declarações repletas de excentricidades, de obsessões doentias e de reprováveis contributos para a abstenção. Restam os que trazem propostas colectivas, ideias sustentadas e os que, em contraste com quem parou na idade da pedra, farão desta campanha “um tempo e um espaço de civilização”.

Ricardo Miguel Oliveira
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