Tenham coragem

Os autonomistas fingem ter dispensado a República. Sejam consequentes

28 Out 2018 / 02:00 H.

O PSD-M que cumpre assumiu que não precisa da República para ter um modelo de mobilidade exemplar, um hospital como deve ser e uma atenção específica aos emigrantes. Finalmente! Deixa assim de haver desculpas de mau pagador e o reles motivo para andar sempre a culpar os mesmos por aquilo que é prometido, sabe-se lá em que moldes, e nunca é feito como era desejado, leia-se, de modo a dar votos.

Faça-se então a revolução tranquila sem demoras. Mesmo continuando portugueses, toca a dispensar o Representante e os auxílios de Estado, a reter impostos e serviços que dão jeito. Regionalize-se já o vento e todos os subsídios sociais, sobretudo o da mobilidade que custa o triplo do custo inicial, como aliás deseja o Ministro Pedro Marques, ponha-se sem rodeios um ferry à prova de levadia durante todo o ano a ligar a Madeira ao mundo e, para o mesmo efeito, crie-se uma companhia aérea, de preferência com aviões. Gaste-se o que há, mesmo que não venha mais porque a banca voltou a emprestar e meta-se o princípio da continuidade territorial na gaveta até porque basta o estatuto de região ultraperiférica para sacar uns euros à Europa.

Julgamos que os autonomistas convictos serão chamados a provar a apregoada disponibilidade financeira. Ou bastará ter palavra? O insuspeito Tribunal de Contas é que sabe. Aliás, se serve para sugerir uma revolução na educação regional devido à quebra da natalidade - apontada como o grande motivo para a defesa de uma diminuição de 1.600 professores durante as próximas duas décadas, e um maior número de fusões de escolas, do ensino básico ao secundário - também deve ter legitimidade para perguntar de onde vem o dinheiro.

Há quem considere que o CINM resolve-nos a vida. Quem dele vai dando cabo - basta ver a constante perda de IRC - que se chegue à frente. Há quem entenda que a hotelaria Madeira é a tábua de salvação. Não é com os 25 milhões de euros de IRC arrecadados em 2017 que lá chegamos até porque os entendidos asseguram que para haver investimento contínuo e pagamento das dívidas, a Madeira precisa de quase dois mil milhões de euros ao ano, ou seja, o dobro do que dispõe actualmente.

Sejam audazes mas percam a mania de tratar o povo e de arranjar aliados como se não houvesse amanhã. Defender os interesses dos madeirenses não é viver obcecado por eleições e por eventuais resultados. Mantenham a serenidade pois alguém vai pagar a factura. E escusam de olhar para o lado.

A arrogância autonómica devia ter espelho. Basta atender a três momentos desta semana para perceber quão é limitada.

O Governo aprovou um voto de pesar pelo falecimento do maestro Victor Costa, expressando deste modo “o seu mais profundo sentimento pela perda de um dos principais vultos da Cultura e da Sociedade madeirenses da actualidade”. Se tivessem vergonha, os governantes de agora e os de sempre tinham-lhe feito justiça em vida, pagando o que tinha direito por ser autor da música do hino que o poder gosta de ouvir em todas as inaugurações.

O mesmo executivo deliberou indemnizar produtores agrícolas afectados pelos temporais em pouco mais de 100 mil euros. No mesmo dia derramou 8 vezes mais por clubes desportivos que praticam aquilo que se vê.

A Investimentos Habitacionais tem 344 pedidos de habitação de emigrantes que regressaram da Venezuela, mas apenas tem capacidade para responder a 62 até final do ano. Quem assumiu não ter soluções foi a secretária da Segurança Social, em claro contraste com o que assegurou o secretário da Educação no mesmo debate parlamentar, ao garantir que estão criadas condições para acalentar, quando é caso disso, a esperança de reconstrução de projectos de vida pessoal e familiar de quem deixou a Venezuela. Em que é que ficamos? E como será a resposta se quem está em apertos na África do Sul, no Reino Unido e no Brasil também decidir legitimamente regressar?

Precisamos de gente que saiba compor na partitura da vida e do poder, com convicções e visão. De pouco interessa que a hora mude. O que faz falta é não deixar acontecer. “Quem sabe faz a hora”! Música, maestro.

Ricardo Miguel Oliveira
Outras Notícias