Refém de interesses pessoais

E o que fez Miguel Albuquerque face ao aumento de gente para saciar? Gestão de merceeiro

13 Out 2019 / 02:00 H.

Se existe uma ilação que se pode retirar da semana que culminou com a apresentação do novo elenco governativo é que o PSD se rendeu aos caprichos do partido que obteve 5,7% dos votos e ‘engoliu um sapo’ enorme, naquela que foi a primeira vitória do CDS após a hecatombe eleitoral de 22 de Setembro. Miguel Albuquerque mostrou fragilidade e dependência, depois rendeu-se à loucura das indigitações dos responsáveis para a máquina da administração pública, num exercício que mistura comédia e tragédia em doses semelhantes.

Vamos por partes. O que dominou todo o processo negocial da coligação foi o folhetim em redor da presidência da Assembleia Legislativa, o primeiro órgão de governo próprio da Região. O CDS, com os seus três deputados fez finca-pé na inebriante ambição de ficar, como disse o ainda titular do cargo, Tranquada Gomes, com a “jóia da Autonomia”. Com a representatividade que o partido obteve nas eleições fez-se tábua rasa do que é democraticamente aceite, para satisfazer um dirigente. Em vez de se discutir o futuro, as bases programáticas do programa de governo, debateu-se um lugar e uma pessoa: José Manuel Rodrigues. A crítica e a indignação correram no PSD, mas em surdina. Honra seja feita a Tranquada, que disse publicamente o que muitos dos seus companheiros pensam, mas que não têm a coragem de o expressar fora dos circuitos do ‘WhatsApp’ e do ‘Messenger’, com receio de perderem o lugarzinho na administração, que as contas eleitorais vieram pôr em causa. Este episódio mancha os primeiros dias da coligação PSD/CDS, de forma muito significativa e coloca um ponto de interrogação no futuro. E vem reforçar o distanciamento dos cidadãos com a política, que continua a jogar-se, em variadíssimas ocasiões, no tabuleiro dos interesses pessoais. Esta jogada para oferecer o lugar cimeiro do regime autonómico a um partido que obteve um resultado tão baixo não dignifica a coligação, nem respeita os resultados das eleições. Vergonha idêntica acontece na frenética dança de cadeiras para colocar os ‘boys’ nas empresas e institutos públicos. Importa tê-los por perto, ocupados, controlados, para não levantarem ondas nem ressuscitarem divisões de um passado recente. Competência? Isso é secundário. Por que motivo temos todos de pagar os salários dos senhores e senhoras que não foram reconduzidos no executivo e nas empresas públicas?

O que fez Miguel Albuquerque face ao aumento de ‘bocas’ para saciar? Gestão de merceeiro. Com a entrada do CDS para o governo rendeu-se ao óbvio: alargou a orgânica do governo. Havia que acomodar os dois secretários do CDS sem perturbar a clientela social-democrata. Num dos casos partiu uma secretaria existente a meio e criou a do Mar. Mas há mais ‘exotismos’ difíceis de compreender. Um deles divide os transportes por três pastas. O novo governo, ainda não empossado, compensa os que lhes são fiéis e aumenta a despesa pública, consubstanciada no séquito de adjuntos e assessores que cada secretaria movimenta.

O resto, o que realmente importa, vem de depois.

Roberto Ferreira
Outras Notícias