Pensar pela sua cabeça

26 Ago 2018 / 02:00 H.

Nas sociedades onde a democracia está enraizada as pessoas não têm receio de exprimir as suas opiniões, de dizerem o que lhes vai na alma, de pensarem pela sua própria cabeça. Numa sociedade livre cada um tem o direito de optar pelo caminho que quiser sem ter de, por isso, pagar alguma coisa ou ser alvo de qualquer tipo de represália. Da pluralidade nascem ideias, da diversidade surgem projectos válidos.

Na República há um governo feito de tendências diferentes, de partidos diferentes. Pela primeira vez na recente história democrática do País encontrou-se um entendimento à esquerda e provou-se que aqueles partidos também conseguem governar, com clivagens aqui e ali, é certo, mas com estabilidade, como se depreende pelo facto de a legislatura se cumprir até ao fim. O mito de que Portugal só era governável com coligações de direita caiu por terra. Concorde-se ou não com governo de António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, ele vingou e frutificou. O modelo continuará a partir de 2019? Veremos, mas há grandes possibilidades de se manter, ultrapassadas as divergências internas dos partidos que o compõem e se o eleitorado não der maioria absoluta ao Partido Socialista, o que deverá acontecer. O consulado do actual executivo não é um exemplo de perfeição, mas muitos estão ao seu lado e o próximo Orçamento do Estado deverá ser o mais ‘generoso’ dos últimos anos... A Madeira tem fundadas razões de queixa de Lisboa em muitos dossiers, mas dizer-se que todos os nossos males advêm de Lisboa é excessivo e um argumento falacioso, de leitura político-partidária. Se Passos Coelho se mantivesse em S. Bento a torrente discursiva do Governo Regional seria idêntica? Não me parece.

Lamentavelmente por cá muito se centra, exclusivamente, na cor do partido, na dominância da administração pública, no seguidismo. A pluralidade de opinião é aceite e propalada, mas não em toda a sua extensão. Fica retida, numa percentagem elevadíssima, na parte teórica da coisa.

A diferença de opinião é entendida, constantemente, como uma ofensa pessoal, como se os poderes não pudessem ser questionados, nem incomodados. Dizer ou escrever em sentido contrário é ser do contra ou, pior, parcial. Autêntico disparate e sintoma grave de défice democrático.

Não há homens providenciais nem detentores da verdade absoluta. A um ano das eleições os ânimos voltam a acirrar-se e o discernimento a perder-se por entre quezílias espúrias e redundantes. Seria bom que a classe política intuísse a mais-valia da existência de opinião diferente, educada e descomprometida. Isso de disparar contra todos os que pensam e têm uma visão diferente é prática do passado, de má memória, que subverte a cultura democrática sã. Numa terra pequena será sempre difícil encontrar um ponto de equilíbrio, não fosse grande parte dos negócios estar dependente da administração regional, repleta de vícios antigos. Haverá coragem de romper com isto?

Roberto Ferreira