Para além do pandemónio

O pânico pode matar mais do que o vírus. Por isso, vamos ser diferentes

15 Mar 2020 / 02:00 H.

Ninguém de bom senso devia usar o coronavírus para obter dividendos políticos. Insistir no expediente usado em tempos de contencioso, de modo a que Lisboa tudo decida para assim ser culpada de eventuais azares ou regionalizar decisões nacionais previamente comunicadas internamente, em manobras de antecipação que visam sustentar um inusitado brilharete, mais do que provincianismo é sinal que a pandemia está a ser usada como plataforma de sobrevivência política e como desculpa para um inevitável novo resgate financeiro. Mas também denunciar sem mais incoerências de um executivo nem sempre hábil num processo que é evolutivo é não ter sensibilidade para as reais limitações de quem é especialista em improviso. Portanto, a uns e a outros, juízo e bom senso.

Ninguém devia servir-se do estado de alerta para fazer negócio. Vender máscaras a 10 euros e embalagens de álcool cinco vezes mais caras do que é habitual é bem pior do que o comportamento irracional de todos quantos resolveram açambarcar papel higiénico, massas e enlatados.

Ninguém que se preze devia expor-se ao ridículo. Os eleitores escolheram governos para que estes sejam capazes de decidir com coragem, para que com competência e criatividade tenham soluções para os problemas, muitos deles imprevisíveis, para que tomem medidas efectivas, sejam elas populistas, ditadas por maiorias virtuais, ou sensatas, que tenham em conta contextos e consequências. Ora, insistir em recomendações e conselhos, pedidos e intenções, algumas delas inconstitucionais, para além de não comprometer quem anuncia, tem dado na relativização que se conhece, o que diz muito sobre a credibilidade de quem exige e é ignorado. A desconfiança do povo é inequívoca. Sem firmeza, cada um sente que está por sua conta, apesar do ar sereno, dos apelos à calma e da garantia que a Região está a ser abastecida.

Ninguém deve esconder informação relevante, deleitando-se com atrevimento a pintar o medonho de bonito ou a arranjar ‘faits divers’ para desviar atenções. Insistiremos na componente pedagógica, recorrendo a especialistas capazes de comunicar em tempo real com as nossas audiências sobre o coronavírus e os mecanismos que visam evitar o contágio. Até porque todos já percebemos que o sistema regional de saúde não aguenta um surto desta dimensão. Bastou a estratégia de centrar atenções no aeroporto para ficarmos com a certeza que, numa Região que tem mais túneis do que ventiladores ou camas hospitalares livres e mais administrativos do que profissionais de saúde, só um milagre, por si só improvável, nos salvará.

O que a pandemia nos obriga a ser, porventura o que nunca fomos, exigentes e determinados, unidos e tolerantes, é bem mais do que o básico, por muito que haja consumidores sedentos de curiosidades mórbidas que não só exigem o relato pormenorizado dos casos suspeitos e infectados, como antecipam a morte dos azarados.

O pânico pode matar mais do que o vírus. Por isso, tomara que nunca nos falte a lucidez. Por uma vez, sem a ambição de dar lições ao mundo sejamos obedientes e comprovemos com actos que somos de outra estirpe, com a noção clara de que temos limitações e carências, mas também elevado sentido cívico. Só haverá uma desgraça sem precedentes se formos imprudentes e levianos.

Entendamos o sismo da semana passada como um abanão vital que nos leve a despertar para o essencial, para o bem maior que não se compra nas grandes superfícies e nas farmácias. É hora de cada um ser altruísta.

Da nossa parte continuaremos a informar com rigor, explicando procedimentos, partilhando testemunhos, ignorando boatos e noticiando o que se passa de facto. Mas e o resto que é tudo? Quem acolherá os filhos menores dos profissionais de saúde, das mulheres que trabalham nas caixas dos supermercados e de todos quantos não podem parar porque acreditamos haver mais vida para além do coronavírus? Quem vai dar de comer àqueles que precisavam da escola para ter uma refeição decente e dar afectos aos que estão mais sós do que nunca? Quem estará vigilante para impedir que os habituais oportunistas, os desleixados e os irresponsáveis andem à solta?

Organizemo-nos - como o fizeram jovens voluntários que se disponibilizam para ir às farmácias, supermercados e correios no lugar de ‘quem mais precisa’ - para que nesta era de excepção sejamos extraordinários, solidários, cooperantes, criativos e motivadores de esperança. Mesmo em casa, resguardados, podemos ser úteis, maduros e diferenciadores.

Nota: Por duas vezes nas últimas 48 horas, o governo emitiu notas generalistas sobre ‘fake news’. Pede-se que passe a identificar os criminosos e não trate por notícias o que não passam de boatos, nem misture quem faz informação com delinquentes.

Ricardo Miguel Oliveira