Olhos bem abertos

19 Mai 2019 / 02:00 H.

Passada uma semana da campanha oficial para as Europeias e pelo menos um mês de campanha oficiosa já todos percebemos que estas eleições não convencem e mobilizam pouquíssima gente. Não fosse os militantes dos partidos a fazer número e as iniciativas em torno do escrutínio do próximo domingo ficavam completamente às moscas. Para um acto tradicionalmente difícil e onde a abstenção surge como o ‘partido’ mais votado, os senhores da política tinham obrigação de orientar melhor todo o processo de comunicação com os eleitores. Falha quase tudo, até na tarefa de preparar a agenda diária da campanha que, ou não existe ou não é difundida em tempo útil. Todos nós já percebemos que as Europeias são para cumprir calendário. Poucas ondas, muito tacticismo e cinismo quanto baste. PSD e PS já têm as suas candidatas eleitas. Por isso, nada de esforço suplementar que as máquinas têm é de estar preparadas para o verdadeiro embate de 22 de Setembro. Entretanto vai faltando rasgo, ambição e ideias. O número de candidatos não corresponde à qualidade do debate, como se a Europa não interessasse à Madeira nem tenha tido um papel determinante no seu desenvolvimento. Depois, bem depois sobram as redes sociais e todo o lixo que incorporam. Há uns anos atrás, ainda o Facebook não passava de um projecto na cabeça do seu criador, as centrais de informação dos principais partidos, com a ajuda de algumas agências de comunicação pagas a ouro, invadiam os fóruns das rádios e nas televisões, por forma a orientarem a discussão para o lado que lhes convinha. Os anos da governação de Sócrates foram pródigos nesse tipo de expedientes. O PSD também sucumbiu à batota para enganar eleitor. Na posse de identidades fabricadas, havia um séquito que tentava monopolizar e condicionar tudo o que fosse programa de antena aberta. A verdade é que, durante algum tempo, essa forma de estar na política dominou a tentativa do controle das massas. Para não falar dos infiltrados em blogues e, mais tarde, dos perfis falsos que capeiam nas redes, com o intuito de confundir e apoucar a mensagem do adversário. As ‘fake news’ são um problema sério e a perversão de uma sociedade esclarecida e informada. E faz perigar as democracias. Exemplos não faltam.

Numa terra onde ainda subsistem muitos pruridos em relação à liberdade de expressão, a forma que muitos cobardes encontram para lançar a confusão é tentar manipular a verdade informativa, omitir, deturpar, dividir. Os vícios do passado jardinista proliferam ainda em número generoso no mundo virtual. Exemplo disso foi a reacção que muitos dos seus seguidores tiveram face a um programa emitido pela TVI sobre a democracia na Região. Podemos não concordar com o que lá foi dito, contrapor, questionar. Mas desenterrar o machado de guerra contra os continentais, arremessar frases de ódio e dizer que não são bem-vindos à Região é o melhor exemplo de intransigência democrática que a renovação fracassada de Miguel Albuquerque não conseguiu eliminar. A nossa autonomia deveria estar num patamar mais elevado.

Voltemos à importância das eleições do próximo domingo e cumpramos com o nosso dever cívico, independentemente da ‘espuma’ que prolifera em seu redor.

O Bispo do Funchal, que está a realizar um ministério participativo desde que chegou à Madeira, veio na véspera do Dia Internacional da Família afirmar que a união de homossexuais não entra no conceito de ‘família’. D. Nuno Brás disse mesmo haver uma “contradição de termos”. Para o prelado os casais do mesmo sexo devem ser “respeitados”, mas... nada de os designarmos família. Mesmo que tenham filhos? O que lhe chamamos, então? Viverão em mancebia, concubinato? Esta é a segunda vez que D. Nuno opina publicamente sobre temas ‘fracturantes’ que vêm dividindo a Igreja Católica. Sobre isto convém recordar o Papa Francisco. Em 2016 enviou uma carta ao casal (homossexual) Toni Reis e David Harrad, felicitando-os por terem baptizado os filhos e considerando-os uma ‘família’. Curiosamente o casal foi rejeitado por quatro paróquias brasileiras, que se recusaram a os acolher, bem como aos filhos. Por este tipo de atitudes, a que se junta, ao que parece, o Bispo do Funchal, constatámos a resistência da abertura da Igreja Católica aos novos tempos e às posições progressivas de Francisco.

Roberto Ferreira