O que realmente conta

17 Nov 2019 / 02:00 H.

O Programa do Governo foi aprovado na Assembleia Legislativa sem surpresas de maior. A coligação está unida e não vai quebrar, asseverou o presidente do executivo, sossegando os que ainda pensavam que o entendimento partidário que deu o poder a um partido que elegeu apenas três deputados fosse colapsar rapidamente. Não vai porque o poder deslumbra e suaviza inquietações do passado, como aquelas em o líder do CDS zurzia nas medidas adoptadas pelo governo liderado pelo mesmo Miguel Albuquerque. Agora tudo está bem ou no caminho certo e Rui Barreto até já elogia o percurso económico trilhado pelo Região desde 2014, era presidente Alberto João Jardim. Estamos conversados sobre a coerência que une o CDS ao PSD.

Regressemos ao programa do governo e à importância que ele tem para a população, especialmente para a mais desprotegida e menos qualificada. E há muitos desamparados numa terra onde os responsáveis gostam de dizer que a saúde está bem e recomenda-se. O povo pouco se incomoda com os jogos de palavras pronunciados no parlamento. O espalhafato verbal não resolve problemas. Os do dia-a-dia, que surgem do nada e que requerem acção imediata. Sejamos pragmáticos: perante o diagnóstico de uma doença aguda o objectivo é tratá-la de imediato, evitando males maiores.

Um familiar chegado teve recentemente um problema do foro oral, que teve de ser tratado por um médico-dentista, com especialidade em cirurgia oral. Era o mais adequado à sua situação. O problema, agudo, carecia de intervenção imediata para evitar o agravamento da patologia. Entre consultas e realização de meios auxiliares de diagnóstico o meu familiar foi operado, com recurso a anestesia geral. O problema foi resolvido, o atendimento irrepreensível. Nada a apontar. Na Região existem bons profissionais e clínicas bem apetrechadas capazes de prestarem serviços de excelência. Ainda bem. A outra face da moeda deste episódio é que os procedimentos custaram dinheiro. Não é difícil calcular quanto, sabendo os custos que uma equipa cirúrgica acarreta. A grande questão e aqui regressamos à esfera pública são os que, de maneira alguma, conseguem pagar os honorários dos médicos privados. Esses têm forçosamente de se submeterem ao calvário dos serviços públicos e percorrem uma verdadeira via-sacra para debelarem a doença que os apoquenta. O meu familiar consultou, antes de recorrer ao particular, o seu médico de família que o elucidou da calendarização clínica para o seu caso. Iria passar uma credencial para uma primeira consulta no serviço hospitalar respectivo, o que, na sua estimativa, iria demorar provavelmente um ano a concretizar-se. Para a cirurgia teria também um tempo de espera calculado de um ano. Isto para não falar dos exames que teria de executar, entretanto.

Este caso é suficientemente esclarecedor sobre o estado da nossa saúde, que não se coaduna nem tem aderência com a dialéctica parlamentar.

A Região dos cuidados de saúde globais e suficientes, ‘pintada’ na apresentação do programa do governo, é uma miragem para muitos dos seus habilitantes, especialmente os mais pobres e desprotegidos. Aqueles que não têm uma alternativa, que muitas vezes faz a diferença entre a vida e a morte. Para esses o que foi dito na Assembleia na semana passada não tem piada nenhuma.

Como os números não mentem e atestam a realidade, aqui ficam, para meditação, os dados em 31 de Dezembro de 2018, referentes às consultas em lista de espera para Estomatologia no SESARAM: 1.387. A mais antiga aguardava atendimento desde 9 de Fevereiro de 2015!

Roberto Ferreira
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