Não foi feita toda a justiça

Revogar o que o povo sempre relegou é redundante

23 Jun 2019 / 02:00 H.

D. Nuno Brás revogou a suspensão ‘a divinis’ do padre Martins Júnior. O bispo do Funchal apenas fez o óbvio, tarde, mesmo que não tenha culpa própria neste capítulo, e mal.

Óbvio porque um pastor que nunca abandonou o seu rebanho e sempre se posicionou como curador de almas, missionário na sua própria terra, agente cultural e pedagogo apenas fez o que recomendara o Concílio Vaticano II, contribuindo assim para uma Igreja capaz de “ir ao encontro do homem na sua realidade existencial”. Era o que faltava amputar-lhe essa dimensão inclusiva, continuando a exclui-lo.

Óbvio porque era inevitável que decidisse sem demora sobre aquilo que a Igreja teimosamente nunca quis resolver com frontalidade e diálogo.

Óbvio porque nomeou administrador paroquial da Ribeira Seca, - com “todos os direitos e deveres previstos no Código de Direito Canónico ”, mesmo que não tenha sido nomeado pároco -, aquele que efectivamente e perante o seu povo nunca deixou de o ser.

Tarde porque a Igreja redentora tornou-se incompreensivelmente calculista, geradora de incertezas e, como lembra a comunidade que ontem e hoje assinala os 50 anos de Martins Júnior como pároco da Ribeira Seca, o prolongado tempo de espera fomentou ódios inexplicáveis, “a hostilidade dos poderes públicos” e até intolerância dos seus pares.

Mal porque a Igreja que prega caridade cristã, moral e bons costumes devia ter pedido publicamente perdão por ter marginalizado um dos seus. O acto de contrição teria sido uma benção, pois teria contribuído para a percepção pública de uma Igreja com rosto humano.

Alguém acredita que havia razões que sustentassem uma suspensão só porque o padre era rebelde, com causas?

Alguém acredita que Martins Júnior foi o único padre revolucionário por natureza que fez política e evangelizou à sua maneira? Quantos não ouviram nas missas e nas pregações inflamadas padres a apelar ao voto em partidos específicos? E quantos deram os adros para comícios e até o púlpito para comunicações do regime?

Alguém acredita que as razões primeiras que levaram à aplicação e manutenção da suspensão do padre Martins Júnior só agora deixaram de existir?

Alguém acredita que é preciso coragem para tomar uma decisão inevitável? Coragem precisará D. Nuno Brás para resolver casos bem menos pacíficos e bem mais vergonhosos, que atentam contra a dignidade humana e os valores cristãos. Coragem precisará D. Nuno Brás na hora de fazer nomeações pastorais que mexam com interessados instalados. Coragem precisará D. Nuno Brás para erguer também na Madeira “uma Igreja para os pobres”.

Se fosse feita justiça, Martins Júnior teria que ser ressarcido por quatro décadas de ostracismo que o mantiveram afastado das decisões colectivas na Diocese, “da comunhão com toda a Igreja” e até das legítimas ambições no interior da própria estrutura hierárquica. Seria Jorge Mario Bergoglio alguma vez Papa se apanhasse um bispo Santana pela frente?

Durante quase 42 anos, Martins foi desterrado, perseguido e humilhado. Nunca lhe faltou “gratidão” do povo que aceitou servir, mas a complexada Igreja não lhe deu a mão e a vez. Esperemos que a 14 de Julho, na festa do Senhor na Ribeira da Seca, aconteça a verdadeira festa do perdão.

Ricardo Miguel Oliveira
Outras Notícias