Matilde e subtemas

14 Jul 2019 / 02:00 H.

1. Saúde, sempre a saúde. O país ficou rendido à luta da bebé Matilde, afectada por uma doença rara que pode colocar em risco a sua vida. O drama sentido pela sua família na busca do medicamento inovador capaz de devolver qualidade de vida à criança mobilizou a sociedade civil que, em meia dúzia de dias, depositou numa conta bancária mais de 2 milhões de euros, quantia suficiente para adquirir o fármaco. A solidariedade teve uma resposta rápida num país onde a lentidão e burocracia dão cartas. Passados alguns dias ficámos a saber que, afinal, o Estado iria comparticipar a vinda do ‘Zolgensma’, o tal medicamento existente nos Estados Unidos da América. Alguém acredita que se não fosse a onda que varreu o país e a cobertura noticiosa permanente ao caso, as autoridades iriam responder em tempo útil? Ainda bem que assim foi, mas fica a pergunta: quantas ‘Matildes’ haverão por este país fora, nesta Região, à espera de tratamento adequado? O Estado só funciona na sequência do empurrão mediático. É inaceitável que se continue a brincar à saúde em Portugal. Todas as famílias têm episódios menos felizes para contar. E muitos são os que aguardam por dias melhores, pela consulta no hospital, pela cirurgia atrasada, pelo internamento de um ente querido num lar. E não, os cuidados de saúde não são iguais para todos. Os que têm forma de suportar a alternativa privada vão-se safando, os que não possuem meios desesperam e morrem.

A saúde é um dos ‘calcanhares de Aquiles’ da nossa democracia, que navega sempre em águas agitadas, com ou sem a visita do diabo. Continuará porque não vemos soluções à vista e está tudo a pairar sobre o imediato, para a urgência.

2. Os desabafos públicos dos políticos pouco ou nada acrescentam, para além de legitimarem o debate em torno de assuntos do designado ‘foro privado’. Poderão, também, surtir o efeito de abrir uma ‘Caixa de Pandora’ de consequências imprevistas. A questão não é nova e já nos habituamos a ver presidentes e primeiros-ministros a correrem para os programas mais populares da televisão, para se submeterem a uma espécie de ‘lavagem’ de imagem. O cenário dos talk-shows ajuda, bem como os apresentadores, autênticos ídolos do povo pagos a peso de ouro e apadrinhados pelos ‘principais’ da Nação. O guião é mais ou menos o mesmo: uma conversa descontraída, com muitas banalidades, e uma perguntinha ‘incómoda’ lá no meio, misturada com um sorriso e um olhar hipócrita. O convidado que agradece a pertinência da questão (“ainda bem que me colocou essa pergunta”) responde de ‘coração’ aberto e com muitos planos que focam os olhos, a boca e a expressão facial. A técnica, conhecida, resulta por momentos porque joga com as emoções, que são trabalhadas antes do programa ir para o ar, em ‘jogadas’ encomendadas por agências de comunicação, contratadas para montar este género de ‘teatro’, de forma a reabilitar e tonificar a imagem dos clientes junto do eleitorado. Quase todos caem na tentação repentista.

Comentar ‘boatos’ em plena campanha eleitoral pode dar muito jeito, porque enquanto se gasta tempo a laborar no vazio de um subtema não se discute o futuro nem as medidas capazes de darem uma vida melhor à população. É certo que não rende tanta audiência, mas não nos livramos das trivialidades de uma geração de políticos sem causas, que deita mão aos mais diversos expedientes para se manter na agenda do dia. Até ver esta campanha eleitoral vai muito baixinha. As eleições são a 22 de Setembro.

Roberto Ferreira
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