Mais Madeira, menos propaganda

02 Jun 2019 / 02:00 H.

As eleições regionais estão em força no terreno. Tudo está em aberto até Setembro. Sobre as Europeias três notas em relação à Madeira: 1) O PSD-M venceu. Teve mais 9.849 votos do que em 2014 (em coligação com o CDS); 2) O PS perdeu, mas teve mais 5.944 votos; 3) Votaram mais 12.053 eleitores, mas a abstenção manteve o 1.º lugar do pódio, com valores preocupantes para a democracia.

Perante os números podemos concluir que, apesar da matriz entre europeias e regionais ser completamente diferente, nenhum partido conseguiria obter a maioria absoluta dos votos se as eleições fossem para a Assembleia Legislativa. O PSD, apesar da vitória, perderia deputados e precisaria de outro partido para poder governar. O PS, mesmo com uma ‘geringonça’ não conseguiria chegar ao poder. Europeias não são regionais, mas estes resultados vão obrigar os dois partidos com hipóteses reais de vitória, a mergulharem de cabeça na campanha eleitoral mais longa de sempre para as umas regionais. Mais longa e de resultado mais imprevisível na história da Autonomia. Ao contrário das euforias descabidas em que embarcaram muitos social-democratas, o resultado das europeias não garante ‘um passeio’ antecipado nem é, por si, garantia de triunfo nas urnas. Vejamos.

O foco, em Setembro, será outro e o número de votantes também. A atracção pela alternância pode surpreender, pela primeira vez em 40 anos. A prestação dos candidatos vai ser outra. Paulo Cafôfo, que traz duas vitórias no currículo no concelho onde vota mais gente na Região, está livre das amarras camarárias e vai lançar-se no terreno como nunca. Poderia ter suspendido o mandato, mas renunciou. A aposta é clara. Subestimá-lo com base nas Europeias é erro primário. É certo que o resultado obtido a 26 de Maio fez soar alarmes no PS-M, mas há margem até Setembro. Apresentará um programa inovador, fundamentado e realista que consiga mobilizar?

O PSD parte com vantagem, porque governa e porque domina uma administração pejada de militantes expectantes sobre que futuro os aguarda a 23 de Setembro. Mas quatro décadas de poder desgastam e debilitam. Alicerçados, nos últimos 4 anos, numa ‘renovação’ que borregou. A entrada em cena de Alberto João Jardim foi apenas o sinal mais evidente. O homem que vergou a Região ao PAEF, na sequência da monumental dívida escondida, é uma mais-valia eleitoral? Isso só demonstra que a nova geração social-democrata não consegue sobreviver, nem se encontrar sem a intervenção do ‘primogénito’. As listas de deputados darão a resposta, uma vez que a movimentação de caras ligadas ao ex-presidente é pública e notória. Por sua vez, a narrativa oficial assente na obsessão pelo ataque ao primeiro-ministro e à República são ‘discos riscados’, que não acrescentam nem provocam gritaria colectiva que rende votos. Conseguirá o PSD-M inverter o discurso? Até agora não deu nenhum sinal disso.

Veremos como se desenrola a campanha a partir de agora. Trará novas formas de captar a atenção dos jovens em particular e dos eleitores em geral? Trará uma nova forma de estar na política, sem arruadas controladas pelas máquinas, com menos selfis e promoção pessoal? Vai dar prioridade aos temas determinantes, como o clima, a demografia, o estilo de vida saudável, a maternidade?

As últimas eleições têm demonstrado o desinteresse cada vez maior pela política-espectáculo, pela ‘espuma’, pela agressividade nos debates. O voto militante está a diminuir e o eleitorado decide de forma esclarecida e tendo por base o que lhe parece mais sério e consentâneo com a sua expectativa de vida. Os bastiões deste e daquele partido estão a desaparecer.

As contas em relação ao futuro devem ser feitas de forma prudente e esclarecedora para que haja mais Madeira e menos propaganda.

Roberto Ferreira
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