Há mais vida para além da discussão partidária

04 Nov 2018 / 02:00 H.

Havia um administrador financeiro numa empresa de têxteis do Norte do país que, perante qualquer situação menos positiva que envolvesse a firma, perguntava de imediato, alto e bom som, de quem era a culpa. Os trabalhadores já sabiam que da sua boca sairia, invariavelmente, perante todos os cenários, a mesma interrogação: “Quem é o culpado?” Não interessava mais nada, apenas arranjar um bode-expiatório para culpabilizar. Nada importavam as circunstâncias e os factos que levaram a que alguma coisa tivesse corrido mal.

Veio-me isto à memória depois de, durante esta semana, ter sido gasto tanto tempo a esgrimir-se na praça pública a responsabilidade pelo financiamento do novo hospital da Madeira, uma vez mais.

Quem entra com quanto, em que percentagens, com IVA e sem IVA, enfim, comunicado para cá, comunicado para lá. Senhores do Governo Regional e do Partido Socialista, não seria oportuno proporem uma tese de doutoramento a um estudante de económicas, contabilidade ou gestão, para conseguir explicar, de forma cabal e limpinha, as contas que vão sustentar a obra? O ruído que se instalou na opinião pública é inimigo da percepção clara e objectiva da questão. Já percebemos que há muita política misturada naquela que vai ser a principal obra pública da Região nos próximos anos, mas um pouco de serenidade ajudaria a percebermos, afinal, quem financia o quê e em que moldes. É importante, sim, sabermos quem comparticipou o projecto, mas também é essencial conhecermos o que foi apresentado nas reuniões mantidas em Lisboa, sem subtilezas, nem meias palavras. Sabemos que a visão centralista do Terreiro do Paço é uma herança secular que vai perdurando, mas para o dossier ser fechado convenientemente, é preciso conhecer os detalhes das negociações, sem fermento, nem omissões. O madeirense comum não está interessado na troca de galhardetes entre a oposição e governo. Isso não lhe resolve nenhum problema e afasta-o da política e de um dos seus principais deveres de cidadania, que é votar. Enquanto se digladiam pela verdade mais conveniente a cada uma das partes, os problemas concretos, aqueles que interferem com a vida das pessoas no dia-a-dia, permanecem, frios e implacáveis: as listas de espera para consultas e cirurgias têm diminuído? Há mais médicos nas especialidades carenciadas? A farmácia hospitalar tem os medicamentos necessários? (Leia, p.f., a notícia da página 23 da edição desta sexta-feira).

A discussão em torno dos dinheiros do novo hospital está-se a tornar imperceptível, aborrecida, despicienda. Importa saber, o quanto antes, de quem é mesmo a culpa!

Roberto Ferreira
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