Fartos de “minudências”

O povo não é parvo. Mesmo que se faça de distraído vai cobrar pelo caos

31 Mar 2019 / 02:00 H.

A Madeira é muito mais do que míseras queixinhas, brigas de médicos, ajustes de contas entre professores, amuos de ‘jotas’ e um sem número de quezílias domésticas causadas pela dificuldade em alterar rotinas. Até porque em cada assunto badalado abundam mais meias verdades do que rigor, como se prova em cada ‘fact check’ informativo.

Está instalada a tendência especulativa, gerada e amplificada pela opinião legítima, embora, frequentemente, mais destinada a alimentar uma espécie de tribunal popular, pronto para julgar com uma celeridade de fazer inveja à justiça, apenas com base em impressões, do que a contribuir para o cabal esclarecimento dos cidadãos. Em ano de eleições costuma ser assim. Mas não devia.

Haverá sempre quem acredite que os inquéritos de encomenda, em muitos casos, feitos em nome da sinistra obtenção da prova que alegadamente serve para despedir ou destinados a intimidar vozes discordantes que possam ser chamadas a depor, vão resolver os problemas sentidos nos sectores nevrálgicos da sociedade. Haverá sempre alguém ávido de sangue, convicto que os saneamentos e as suspensões terão como causa efectiva a incompetência, logo, serão positivamente consequentes. Haverá sempre gente que se julga lúcida mas que nunca desconfiará de motivações persecutórias nos processos disciplinares instaurados aos que ousaram destoar do corporativismo instalado, e que serão condenados mesmo antes de tudo estar devidamente provado. É por isso que quem julga saber fazer a hora, programa sobretudo entretenimento com recurso a estas e outras “minudências” para que nada de essencial se altere, mesmo que apregoe propósitos de mudança, para que tudo fique exactamente na mesma.

A depuração sempre foi uma obsessão dos que temem perder influência e dinheiro. O resto é conversa que bem podia centrar-se no futuro. O que não falta é assunto, algum dado à estampa na última semana. Por exemplo, o que pensam fazer os que são poder e os que querem tachos com o drama demográfico que já se vive e que pode deixar nos próximos anos a Madeira envelhecida, sem um terço da população e com gente cada vez mais isolada e só? O que tencionam fazer os comprometidos com o bem público para que a sociedade seja mais equilibrada, menos dada a radicalismos e à intolerância? Muitos nem deram conta que os crimes violentos e graves na Madeira atingiram em 2018 o pior registo dos últimos cinco anos e que por pouco não entrava mais droga num mercado com preocupantes sinais de delinquência, tantos que até a cadeia reforça a segurança. O que esperam ter como recompensa aqueles que perante mais um dia de caos no aeroporto da Madeira não foram capazes de sair da sua zona de conforto e pôr em prática o famigerado plano de contingência? Custava muito ter uma brigada a distribuir água, sumos, sandes, cobertores e colchões por aqueles que daqui saíram jurando nunca mais voltar? O que tencionam ganhar os que preferem ser aliados dos abutres que nos querem tirar um instrumento de desenvolvimento como é o CINM em vez de o defenderem com argumentação séria?

Por este andar, sobrarão poucos. O último a sair que feche a porta. Sem preocupações excessivas. Basta deixá-la no trinco. Não faltam por aí peritos em mudar fechaduras, em alterar códigos, em subverter a normalidade e em tornar a vida de quem tenta ser feliz num inferno.

Ricardo Miguel Oliveira
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