Emergência sem atropelos nem omissões

05 Abr 2020 / 02:00 H.

Ninguém da minha geração nem das anteriores se recorda (teremos de ir muito lá atrás) de ter passado por tamanha privação. Os tempos são de adaptação a novas realidades. É como se tivéssemos rasgado o livro de instruções que nos tem norteado durante séculos. As certezas adquiridas e as rotinas passaram para segundo plano. Perante o ‘monstro invisível’ tudo se altera, tudo se transfigura. A luz está ao fundo do túnel, como disse o primeiro-ministro, mas nós ainda não a conseguimos ver. Para nosso desespero, confinados a espaços que não foram concebidos para permanecermos tanto tempo dentro deles. Primeira certeza: nada será igual daqui para frente: objectivos de vida, trabalho, férias, política, relações pessoais.

A emergência é global, não circunscrita a nenhum território específico. Estamos todos no mesmo barco, como sublinhou em boa hora o Papa Francisco. E o barco precisa de tanto e precisa de todos. Já. Para que mantenhamos dignidade, para que no limite sobrevivamos às provações do vírus que impõe tantas mudanças à nossa vida. O caminho das pedras que a humidade trilha é temerário e imprevisível. Já percebemos que temos de estar unidos na luta contra a covid-19, que temos de arranjar respostas para as consequências nefastas provocadas pela paralisação social. Se ninguém estava preparado para o que aí vinha, apesar de toda a evolução tecnológica e científica, a reacção à crise tem de ser musculada para evitar o caos e o empobrecimento generalizado da população. As “medidas excepcionais” têm de ser realistas e céleres para que ninguém passe fome, para que ninguém fique sem o seu trabalho, a sua actividade. Para que a esperança sobreviva num mar de incertezas. Na contabilidade geral há vários itens a ter em conta e todos têm de ser solidários. Do Estado à banca, que deve muito aos portugueses, que se esfalfaram a contribuir financeiramente para a sua sobrevivência. Os bancos não podem querer retirar dividendos com a crise. Ninguém pode, porque é imoral, é ingrato e inaceitável. Chegou ao momento de retribuírem os milhões gastos para amparar gestões danosas, ainda a contas com a Justiça.

Situações excepcionais são suportadas por medidas excepcionais, mas que não se faça tábua rasa do bom senso e da Lei. O estado de emergência não é um salvo-conduto para hipotecar direitos essenciais, nem suspende a democracia. Nenhum governante deve afirmar – por mais irritado que esteja - que se está nas tintas para a lei. Nenhum governo pode ensaiar o momento para limitar o acesso à informação. Estado de emergência requer medidas draconianas, mas atenção: há balizas intransponíveis. Sejamos poupados a exercícios irreflectidos, que obrigam a recuos e explicações infantis na recolha dos ‘cacos’. Sejamos, ainda, mais poupados ao ruído que os serviçais partidários continuam a fazer nas redes e em blogues domésticos. Concentremo-nos no essencial, na verdade dos números, na mensagem séria e honesta. A Região tem estado bem nas medidas preventivas, na antecipação do problema. Mas, cuidado, o tempo não é da trica política, mas de líderes que governem com equilíbrio. Respeite-se as instituições e o trabalho dos que estão na linha da frente nos hospitais, que labutam com todo o tipo de faltas. Respeite-se também os que têm por missão informar, com rigor, o que se passa no país e no mundo. O papel dos órgãos de informação não pode ser restringido nem encarado como prescindível. De forma alguma. E não se confunda propositadamente a lixeira difundida em sítios anónimos e no Facebook com jornalismo. Recuemos à célebre tirada de Thomas Jeffersson, que antes de se tornar o terceiro presidente dos EUA, em 1787, disse: “Se tivesse que escolher entre um governo sem jornais ou jornais sem um governo, não hesitaria em preferir a segunda hipótese”.

Em tempo de guerra temos de estar unidos, mas essa união não é sinónimo de submissão ao atropelo, à mentira ou à omissão de factos e dados com interesse público. O escrutínio é mais necessário que nunca. Continuaremos atentos!

Roberto Ferreira