Diocese à Brás

13 Jan 2019 / 02:00 H.

A Igreja Católica e ainda excessiva e fervorosamente Romana demorou quase dois anos a oficializar aquilo que há muito havia decidido, o que diz bem da incapacidade prática em lidar com o que é urgente: D. Nuno Brás foi finalmente nomeado bispo do Funchal e em breve é enviado para a Madeira, mesmo que a teimosa hierarquia tenha ignorado alertas locais e necessidades óbvias, vertentes que se misturam com as pretensões infundadas e desconsiderações absurdas sejam elas feitas por comentadores atrevidos ou padres ressabiados. O tempo dirá se será ou não “mal amado”.

Não admira que confesse “temor”. Mas mais importante do que o que é como pessoa é o que pode ser como bispo neste lugar específico e também libertador. Se tem qualidade pastoral, como diz quem o formou, tem tudo para marcar a diferença. Basta que dê atenção aos sinais dos tempos e da vida, se demore com o povo e não tenha medo de intervir.

Tem a tarefa bastante facilitada pois as expectativas estão demasiado baixas. Aliás, não precisará de fazer muito para fazer esquecer a inegável era marcada por um vazio doutrinal, despida da elementar e assídua leitura crítica da actualidade e de postura pastoral incisiva. Não será missão impossível que em vez de ostracizar, perdoe e que em vez de acusar, promova.

Para ter “a estima do Povo de Deus” deverá ser pertinente e transparente, autêntico e humilde. De pouco servirá aos madeirenses ter na diocese mais um profissional dos sacramentos e estimado contribuinte dos luxos da cúria romana, uma ensonada figura de corpo presente nos eventos para o qual é convidado, alguém com alegados “grandes dotes de inteligência” de utilidade duvidosa.

O desejo de “incrementar a vida cristã na Madeira” é um reparo severo a um passado recente que não deixa saudades. Mas acima de tudo um bom começo.

Na Madeira tolerante há um povo “com fé, com esperança e com caridade”, comunidades com tradições e um sem número de dependências do divino, gente que sobretudo precisa de quem a ouça e proponha orientação, sem impor receitas generalistas, sem desconfiar, sem apontar o dedo. Mas há mais.

Mesmo entre quem não professa, há a certeza que a Madeira católica precisa de um bispo inclusivo, que conte com os voluntariamente disponíveis e não marginalize aqueles que têm outro tipo de pacto com a verdade e abominam a hipocrisia. Precisa de alguém culto e que derrame sabedoria em igual medida.

Precisa de um líder capaz de perceber que a diocese também se faz de turistas e de emigrantes e que as igrejas deve acolher em vez de afugentar.

Precisa de um aliado no combate empenhado à miséria, à exclusão e à injustiça social, que fale com clareza e que não seja indiferente, antes sensível à vida, às dores, esperanças, contradições e alegrias colectivas.

Precisa de um pastor próximo do rebanho que apascenta e inteligentemente distante dos diversos poderes que o tentam dominar em cada instante.

Precisa de um bispo que não seja peça menor do xadrez que aqui também é política e que apenas se movimenta em diagonal.

D. Nuno Brás é bispo há oito anos, o tempo mais do que suficiente para saber os caminhos que não deve percorrer se é que quer estar próximo de quem precisa de rumo.

É bom que venha “sem ideias pré-concebidas”. O arsenal de preconceitos que habitualmente faz parte do espólio eclesiástico é inimigo da descoberta. Esperamos, afinal é o que nos resta, que a “coragem e ousadia” que diz trazer sejam evidentes desde bem cedo, caso contrário, conhecer “boa parte do clero” madeirense pode ser o maior dos obstáculos a uma pastoral com plano e valor.

Ricardo Miguel Oliveira
Outras Notícias