A Estrada das Ginjas – Parte I

20 Ago 2019 / 02:00 H.

Fiquei verdadeiramente estupefacto, quando li no DN de 24 de Julho último, solenemente anunciado pelo Presidente do GR, que estão para breve os trabalhos de arranjo e reabertura ao trânsito rodoviário da Estrada das Ginjas.

Pergunta-se para quê, com que objectivo?

Mas antes, vamos a um pouco de história:

Estávamos no início da década de 1980, quando os Serviços Florestais da Madeira decidiram rasgar um acesso rodoviário, no Concelhio de S. Vicente, entre a localidade das Ginjas e a dos Estanquinhos no Paúl da Serra, passando pelo sítio do Caramujo. Nunca se entendeu muito bem qual a justificação de semelhante obra, uma vez que não serviria agregados populacionais ou agrícolas, nem tão pouco haveria necessidade de proceder a trabalhos de reflorestação ou de limpezas florestais, dado que a área em questão se encontrava coberta por densa floresta Laurissilva.

De qualquer modo, foram colocadas as máquinas no terreno, junto à Levada Grande ou Canal do Norte, no sítio das Ginjas, e iniciaram-se os trabalhos de desbravamento, subindo encosta fora aos ziguezagues. Os danos no coberto vegetal foram então inevitáveis e bastante notórios, principalmente na zona quase plana do Caramujo.

Por essa altura, tinha iniciado havia pouco tempo, a minha actividade profissional, tendo sido colocado na Circunscrição Florestal do Funchal. Integrava aí a equipa de trabalho que procedia no terreno, ao reconhecimento e delimitação do que viria a ser o Parque Natural da Madeira. Recordo-me de o meu Director, a dada altura, me ter pedido para acompanhar os trabalhos de abertura da estrada, ao que solicitei escusa a essa tarefa, pelo facto de não concordar em absoluto com tal obra, alegando as razões que me pareceram então óbvias, e que ainda hoje se mantêm perfeitamente actuais.

Os trabalhos prosseguiram, e ao fim de uns longos meses, as máquinas atingiram finalmente o sítio dos Estanquinhos, no bordo Nordeste do planalto do Paúl da Serra, vencendo um desnível de 600 m. Para trás ficou um rasto de destruição significativo ao longo de 10 Km, numa zona até então praticamente intocada, e com pouca ou nenhuma pressão humana.

Dizia-se então que a estrada agora aberta, constituiria uma alternativa rodoviária à Estrada Regional, assegurando assim o não isolamento da Vila de S. Vicente, servindo como escapatória para o Sul da Ilha. A estrada de terra batida, rapidamente começou a sofrer as consequências erosivas dos rigores dos invernos nortenhos, e as chuvas que por vezes lá caem abundantemente, tornaram-na dificilmente transitável, mesmo por viaturas todo-o-terreno. Pouca ou nenhuma utilidade teve aquela estrada ao longo dos anos. Deixada a um relativo abandono, a generosa floresta indígena foi gradualmente regenerando, numa tentativa de cicatrizar a extensa ferida que lhe causaram.

Entretanto, no ano de 1982 é criado oficialmente o Parque Natural da Madeira, o que foi o grande instrumento de ordenamento e gestão do património natural da Ilha, ficando a área em questão classificada como “Reserva Natural” e “Reserva Geológica e de Vegetação de Altitude”, respectivamente.

Com tal notícia, veio também a saber-se que nos trabalhos vão ser utilizados dinheiros comunitários do PRODERAM, e que a estrada terá um “pavimento especial não impermeabilizado”. Gostaria que me esclarecessem como é que num acesso compactado pela circulação automóvel, apresentando um declive como aquele, se garante a infiltração no solo das águas pluviais?!

Não nos tomem por tolos com falácias deste género, e assumam humildemente de uma vez por todas que esta estrada é absolutamente desnecessária!....

O mais incrível e inaceitável de tudo isto, é o facto de a entidade que deveria promover e zelar pela protecção efectiva da Laurissilva - o GR, seja ela própria a tomar a iniciativa de a depreciar em grande escala, pomposamente anunciada no município que se intitula e se assume como Capital da Laurissilva!...Quando se assiste ao fenómeno imparável e impiedoso das alterações climáticas, e à crescente escassez de água, deveria prevalecer o bom senso e a competência, para se acautelar com o maior rigor possível a salvaguarda da nossa Laurissilva, considerando-a como se de um Santuário se tratasse.

E por hoje aqui me fico...

Henrique Costa Neves
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