A balada do Sr. Júlio

Falar numa «arquitectura madeirense» ou de inspiração regional, não passa de pura ficção

12 Fev 2019 / 02:00 H.

No dia 10 de Janeiro de 1890, em carta endereçada ao jornal inglês The Building News, o arquitecto Somers Clarke, contratado pela família Reid para fazer o projecto daquele que hoje todos conhecemos como o Reid’s Hotel, fez um relato bastante crítico da construção civil na ilha, personificado na figura do Sr. Júlio, o construtor local encarregado da obra. Com a usual sobranceria da mentalidade britânica então vigente, Clarke desfiou na sua carta um extenso rosário de queixas, entre as quais se destacava o problema das varandas dos quartos, cujo considerável balanço o tinha levado a propor uma solução em betão e ferro laminado.

O problema revelara-se insolúvel «nesse país que a seguir à Turquia era, provavelmente, o mais atrasado da Europa», e onde ele, Somers Clarke, se vira forçado a trabalhar em condições semelhantes àquelas em que os seus «antepassados tinham trabalhado em Inglaterra há uns 250 anos atrás». Aparentemente, o iletrado Sr. Júlio (que, imagine-se! «não falava inglês») tinha resolvido o problema das varandas utilizando grandes lajes de cantaria que, uma vez içadas para o devido local, dispensavam os apoios em ferro previstos pelo arquitecto. Clarke não compreendeu, ou não quis compreender, que a solução do construtor local era que se aplicava a todas as varandas tradicionais do Funchal há mais de 200 anos (e a que, tal como hoje podemos constatar, viria a prevalecer no hotel).

Mas a verdade é que, apesar de tanta queixa, o arquitecto inglês acabou por reconhecer que, nessa indústria de construção em que as gruas eram desconhecidas; em que «as pedras para construir as paredes chegavam ao estaleiro às costas de um burro, e na obra eram carregadas à mão, uma a uma, pelos operários»; em que os bons estucadores tinham desaparecido; e em que as taxas de alfândega sobre materiais importados eram elevadíssimas; nem tudo era atrasado e inepto. Pasme-se!, na sua opinião, as paredes construídas na rija alvenaria de pedra basáltica da região, constituíam, a excepção: «espessas e sólidas paredes que bem gostaríamos de ver construídas no nosso país» (transcrevo do original, para que os tetranetos do Sr. Júlio, que já sabem falar inglês, não duvidem do que aqui está escrito: «thick and solid walls, which one longs to transfer to this country»).

Hoje não existem senhores Júlios, isto é, construtores locais. A indústria rege-se pelas mesmas normas em todo o território nacional e, na Madeira, os materiais e técnicas utilizados, à excepção da cantaria basáltica (excepcionalmente cara!), são todos importados. É por isso que falar numa «arquitectura madeirense» ou de inspiração regional, não passa de pura ficção, tão legítima, aliás, como seria falar de uma arquitectura inspirada no classicismo grego, no construtivismo russo ou nas cápsulas de café nespresso. E é por isso, também, que preservar as paredes e varandas que os senhores Júlios nos deixaram ao longo dos últimos séculos é hoje tão importante. Quem sabe o que irão pensar as gerações futuras dessas nobres paredes de pedra que os nossos antepassados arrancaram, à força de braços, do rude solo da ilha, como se quiseseem desafiar a corrente do tempo e do esquecimento?

Rui Campos Matos