Violência e pobreza impulsionam migração de crianças da América Central e México

17 Ago 2018 / 04:12 H.

A violência extrema, a pobreza e a falta de oportunidades são fortes impulsionadores da migração infantil irregular do norte da América Central e do México, segundo um estudo ontem divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

O relatório do UNICEF, intitulado “Uprooted in Central America and Mexico” (”Desenraizadas na América Central e no México”), aborda um conjunto de desafios e perigos enfrentados por crianças e famílias migrantes e refugiadas da América Central e do México durante o difícil processo de migração e retorno.

O estudo sublinha que estes mesmos fatores - a violência extrema, a pobreza e a falta de oportunidades - são também consequências das deportações do México e dos Estados Unidos.

A agência da ONU pede também aos governos que trabalhem juntos na execução de soluções para ajudar a atenuar as causas da migração irregular e forçada e salvaguardar o bem-estar das crianças refugiadas e migrantes ao longo da viagem.

Segundo o estudo, 68.409 crianças migrantes foram detidas no México entre 2016 e abril de 2018 - 91% das quais foram deportadas para a América Central.

Cerca de 96.216 migrantes do norte da América Central, incluindo 24.189 mulheres e crianças, regressaram do México e dos Estados Unidos entre janeiro e junho deste ano. Mais de 90% foram deportados do México, indica a UNICEF.

“Como mostra este relatório, milhões de crianças na região são vítimas de pobreza, indiferença, violência, migração forçada e medo de deportação”, diz Marita Perceval, diretora regional da UNICEF para a América Latina e Caraíbas.

“Em muitos casos, as crianças que são deportadas para os seus países de origem não têm um teto para onde voltar, estão profundamente endividadas ou são alvo de gangues. Ser deportado para este tipo de situações aflitivas faz com que se torne mais provável uma nova migração”, declara Marita Perceval.

O documento relata que El Salvador, Guatemala e Honduras estão entre os países mais pobres do hemisfério ocidental, com 44%, 68% e 74% das crianças a viver em situação de pobreza em cada país, respetivamente.

Crianças e famílias pobres contraem frequentemente empréstimos para financiar a sua migração irregular para os EUA, ficando numa situação financeira ainda mais precária quando são apreendidos e deportados sem dinheiro e incapazes de pagar as suas dívidas.

Essa pressão económica pode deixar crianças e famílias sem casas ou sem recursos para ter acesso ao essencial.

A violência de gangues, segundo o relatório, é um problema generalizado em muitas comunidades no norte da América Central, com crianças alvo de recrutamento, abuso e inclusivamente homicídio.

Entre 2008 e 2016, nas Honduras, por exemplo, aproximadamente uma criança por dia foi vítima de homicídio.

As crianças e famílias que regressam enfrentam a estigmatização dentro da comunidade por causa das suas tentativas fracassadas de migração. Esse facto pode dificultar a reintegração de crianças na escola e adultos no mercado de trabalho, indica o relatório da agência da ONU.

A detenção e a separação familiar por parte das autoridades de migração são experiências profundamente traumatizantes que podem afetar negativamente o desenvolvimento a longo prazo de uma criança.

Manter as famílias unidas e apoiar alternativas à detenção são medidas fundamentais para garantir o superior interesse das crianças migrantes e refugiadas, acredita a UNICEF.

O relatório faz também uma série de recomendações para manter as crianças refugiadas e migrantes seguras e atenuar os fatores que levam as famílias e crianças a deixar as suas casas, através de rotas de migração irregulares e perigosas, em busca de segurança ou de um futuro mais promissor.

Os programas apoiados pela UNICEF no norte da América Central e no México têm tido um impacto positivo na vida de muitos jovens migrantes, refugiados e retornados.

Entretanto, segundo o relatório, estas iniciativas terão de ser substancialmente ampliadas para responder a todos os desafios enfrentados pelas crianças em risco desta região.