ONU diz que 445.000 iemenitas fugiram de zona de Hodeida

Iémen /
10 Nov 2018 / 04:40 H.

Centenas de milhares de iemenitas fugiram da zona de Hodeida devido a uma ofensiva da coligação liderada pelos sauditas para tomar a cidade portuária do mar Vermelho aos rebeldes xiitas, indicou hoje a agência da ONU para os refugiados.

Cerca de 445.000 dos residentes de Hodeida fugiram desde junho, um número que sublinha a difícil situação que se vive dentro e à volta da cidade que serve de principal ponto de entrada para alimentos e ajuda humanitária, indicou o Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR).

A população daquela região é de cerca de três milhões de habitantes, de acordo com números do Conselho de Refugiados Norueguês.

O ACNUR expressou também preocupação com a segurança daqueles que ficaram retidos em Hodeida, já que a intensificação das operações militares “está cada vez mais a confinar comunidades e a cortar-lhes as rotas de saída”.

Números relativos àqueles que se encontram ainda na cidade portuária são difíceis de obter, referiu a agência da ONU.

As forças governamentais iemenitas apoiadas pelas forças aéreas e navais da coligação continuam envolvidas em intensos combates com os rebeldes, conhecidos como Huthis.

As batalhas têm matado dezenas de combatentes de ambos os lados, com dúzias de veículos militares destruídos ou em chamas ao longo das linhas da frente.

Numa declaração hoje divulgada, o internacionalmente reconhecido Governo do Iémen, sediado na cidade meridional de Aden, indicou que as suas forças estão a avançar em direção ao norte e ao oeste de Hodeida e em todas as frentes com cobertura da coligação.

Também hoje, a Organização Mundial de Saúde (OMS) disse que a violência em Hodeida está perto das instalações de saúde da cidade, impedindo-as de funcionar e restringindo os movimentos dos profissionais de saúde, doentes e ambulâncias.

A mais recente ofensiva da coligação liderada pela Arábia Saudita para obter o controlo de Hodeida surge quando a guerra civil no Iémen está a apenas alguns meses de entrar no seu quarto ano.

A coligação iniciou a sua intervenção no Iémen em março de 2015, com o objetivo de derrotar os rebeldes apoiados pelo Irão e restaurar o Governo de Abd Rabbo Mansur Hadi, mas agora está a ser alvo de crescente pressão internacional para pôr fim à guerra que resultou naquela que a ONU já classificou como a pior crise humanitária do mundo.

Os combates em torno da cidade, uma área vital para a maioria da população iemenita, ameaçam agravar a já extrema situação humanitária do Iémen e obstruir o acesso de ajuda fundamental ao país, pondo em perigo as vidas de milhões de pessoas.

O Conselho de Refugiados Norueguês alertou para as repercussões que a continuação dos combates poderá ter nos milhões de iemenitas em situação de fome extrema, estimando que o custo da guerra já quase alcançou os três mil milhões de dólares só em 2018, indicou em comunicado.

“Estamos agora a advertir de que ao permitir que isto continue, as partes no conflito e os seus apoiantes internacionais serão responsáveis pela morte, pelos ferimentos e pelo sofrimento de milhões de pessoas”, declarou o diretor do Conselho no Iémen, Mohamed Abdi.

“Ataques sem sentido contra civis, provas de uma população faminta e apelos desesperados de testemunhas humanitárias pouco mais fizeram que levar a condolências de uma comunidade internacional que poderia ter carregado nos travões há muito tempo”, acrescentou o responsável.

Os Estados Unidos e o Reino Unido, os principais fornecedores de armas à coligação saudita, apelaram recentemente para um cessar-fogo no Iémen e o lançamento de negociações políticas conduzidas pela ONU para pôr fim à guerra indireta entre Arábia Saudita e Irão.

Hoje, o enviado especial da ONU para o Iémen, Martin Griffiths, disse na sua conta oficial da rede social Twitter que estão em curso as consultas com as partes em conflito no país para concluir questões logísticas com vista a uma nova ronda de negociações de paz.

A última tentativa de Griffiths para relançar as negociações de paz, em setembro, fracassou devido à falta de comparência dos Huthis.