Marcha contra o governo marcada por alegria e esperança

12 Fev 2019 / 19:27 H.

Na marcha de contestação ao regime, convocada pelo Presidente interino, Juan Guaidó, veem-se famílias, crianças, idosos, espécie de festa da esperança em que todos clamam por uma mudança no país.

A avenida Francisco Miranda transborda de gente, pelas 13:00. São muitos milhares a caminhar, quando se ouve uma tremenda ovação: Guaidó, no banco de trás de uma moto, sem capacete, fato azul, atravessa a multidão até ao palco.

Há uma ânsia enorme nas pessoas de mostrar que querem outra vida. Vão se formando grupos atrás do tripé da equipa de reportagem da Lusa, querem ouvir, querem falar, querem dizer ao mundo o quanto desejam uma mudança no país.

O tom é quase sempre alegre, muito alegre até, como se, neste momento, cada pessoa se sentisse uma pequena parte de um todo que se identifica com um objetivo comum, e que sente que ali, só ali, no meio da multidão, está protegido e pode dizer tudo o que lhe vai na alma.

As frases soltam-se em tom de anúncio sentido, uma alegria por algo que ainda não aconteceu, um grito desesperado. E algumas não conseguem conter a emoção quando lembram que tiveram de mandar os seus familiares mais próximos para outros países, porque “não se pode viver na Venezuela”.

“Tic-tac, tic-tac”, o tempo passa e o país mantém-se num impasse político. Um senhor de idade, leva ao peito o cartaz que não diz mais nada, só essa indicação dos segundos que passam.

Ao lado duas jovens mostram um cartaz a pedir orações por vários santinhos e com a mensagem, “vai-te embora Maduro”.

Uma jovem leva o bebé ao colo com uma folha A4 à frente. Só diz, “venho lutar pelo meu futuro”. Talvez um dos manifestantes mais novos de toda a marcha, menos de um ano de idade.

Passa uma família completa, muito alegre, e o mais velho da família grita “Maduro não é Presidente, é um delinquente”.

Maria Lima tem 54 anos, não tem dúvidas sobre quais as razões que a levaram a estar ali na rua a protestar contra o regime: “estou aqui para pedir às forças armadas que nos ajudem a estabelecer um regime democrático e livre”. Porque, lamenta, “foram 20 anos de pesadelo. Uma inflação galopante, não há medicamentos, não há alimentos, há crianças a morrerem. Tem que acontecer alguma coisa rapidamente porque o povo já não aguenta”, disse.

“Maduro, põe-te a andar!” grita Miguel González, fazendo um gesto de um pontapé no vazio, e desata a rir-se às gargalhadas. Agora já a sério, ao microfone da Lusa, diz que o que lhe interessa é falar do futuro, “falar de democracia, de trabalho, de progresso”.

O regime político vigente não é uma democracia, afirma. Porquê? “Então, se perseguem todos os partidos da oposição, como é que se pode falar em democracia? Qual democracia?”

Para Miguel, Juan Guaidó representa a juventude, “o futuro da Venezuela”.

Com 78 anos, Felícia Lopes diz estar ali para celebrar a juventude. “Não tenho medo deles. Estamos a ver a luz ao fundo do túnel. Maduro, sai, queremos celebrar a vida, a liberdade”.

Graciela luta pelo futuro das crianças. “Queremos a paz, harmonia, tenho muita esperança”.

No meio da avenida Francisco Miranda desfila um português, com uma camisola vermelha da seleção nacional de futebol. Chama-se João Martins, é de Guimarães, tem 73 anos e vive há 40 na Venezuela.

É o país do seu coração, mas fica demasiado triste. Está muito desiludido com o regime que prometeu ajudar os pobres: “Chávez manipulou todas as pessoas. Que ia ser tudo melhor, que ia cuidar dos pobres e o que é que vemos hoje? Há cada vez mais pobres. Mataram a classe média e os poucos ricos que existem são só os do Governo”.

Causa-lhe repulsa o facto de não se permitir opiniões diferentes: “Alguém que faça oposição é logo perseguido, torturado. Muitos fugiram, ou andam escondidos. Este governo é responsável por muito derramamento de sangue”.

João Martins já foi sequestrado, cortaram-lhe a boca com uma faca. Mostra a cicatriz, e conta que também lhe deram uma punhalada nas costas. “Mas sobrevivi e estou bem”, só que não se sentia seguro e mandou a família para fora, quase chora quando fala dos seus.

Para este vimaranense, a Venezuela é um paradoxo: “Um dos países mais ricos do mundo, com as pessoas mais pobres do mundo”.

A manifestação de contestação ao regime foi anunciada no passado dia 02 por Guaidó, que falava perante milhares de apoiantes concentrados em Las Mercedes, leste de Caracas, onde apelou à continuação da luta contra o regime de Nicolás Maduro.

Em resposta, a esta que é a terceira jornada de mobilização pedida por Guaidó, depois das dos dias 23 de janeiro e 02 de fevereiro, Nicolas Maduro anunciou que ia participar na marcha de hoje de jovens da esquerda contra a “intervenção imperialista americana”.

Guaidó autoproclamou-se Presidente interino a 23 de janeiro, dias depois da posse de Nicolás Maduro para um segundo mandato, após uma eleição considerada ilegítima pela UE.

A maioria dos países da União Europeia (UE), incluindo Portugal, os Estados Unidos, o Canadá e vários países latino-americanos, designadamente o Brasil e a Colômbia, reconheceram Juan Guaidó como Presidente interino com a missão de realizar eleições presidenciais livres e transparentes.

A crise política na Venezuela, onde residem cerca de 300.000 portugueses ou lusodescendentes, soma-se a uma grave crise económica e social, com escassez de bens e serviços essenciais, que levou 2,3 milhões de pessoas a fugir do país desde 2015, segundo dados da ONU.